domingo, junho 23, 2013

NAS TEIAS COMPLEXAS DA FÉ


É hábito culpar o consumismo de tornar longínquas as tão necessárias atitudes emancipadoras da fé, garante único da entrada no Reino de Deus. Ele é a pedra no sapato, o agente malvadão, laxista, ao serviço da volúpia, a vertente mais desprezível da natureza humana. Pelo menos é assim que pensa o senso comum: o luxo é pecado e a pobreza é a virtude que conduz à fé, e sem fé não há céu beatífico.

Sacrificada no altar da luxúria, dizem, a fé apaga-se ou é-lhe reservado um lugar de segunda categoria no rol das importâncias do complexo pensamento humano e respectivas acções. Porém, o factor religioso jamais abdicou da riqueza e da sumptuosidade, as quais sacralizou, ao longo dos séculos, sob o pretexto de conferir ao templo o estatuto de casa dos deuses/de Deus aos quais/a Quem tudo o que de mais rico deve ser ofertado. E não podia ser de outro modo. Sempre foi considerado que o que é rico na terra é caminho promissor para o outro mundo.

Enredado nos valores terrenos, o ser humano equiparou o que de mais precioso existe na Natureza com o que é suposto existir no céu. Este tem sido imaginado como um mundo de delícias e ociosidade, prazeres infindáveis, uma sensualidade indizível, enfim, tudo o que de mais possamos definir como a antítese do objectivo da fé: a certeza de uma boa colheita após uma vivência ética dedicada à partilha. O mundo dos deuses ou o céu é o lugar da perdição, numa palavra. Desta forma, singrar na fé nunca foi o mais importante. O que a fé dá é que foi decisivo para as supostas venturas celestiais. E a fé tem dado muito.

O Cristianismo pregou o desprendimento dos bens terrenos. Oh! Fantástico. Mas simultaneamente refinou essa tese ao defender que os mesmos deviam ser entregues a Deus, ou seja, às igrejas, no seguimento das práticas religiosas pagãs, sem alterar uma vírgula.

Com isto, o ouro com que se revestiram as estátuas e as imagens nos templos, a faustuosidade dos mesmos e a arrogância dos seus celebrantes, paramentados de igual modo, têm sido o rosto da manipulação da fé. Assim, jamais faltou quem dela cinicamente usasse e abusasse, aprisionando-a na crendice e na superstição, tornando cobiçada a casa dos deuses/de Deus, transformada em tesouro mais que em casa de oração.

O episódio da expulsão dos vendilhões do Templo, por Jesus (Mt 21:12-13; Mc 11: 15-17; Lc 19: 45-46; Jo 2: 13-16), é o exemplo de que aquilo que o dinheiro compra não pode coexistir no espaço da prece. Os negócios terrenos nada têm a ver com matéria de fé, e os templos não são centros comerciais. A expulsão tem também o sentido de que nem tão pouco se deve deixar aproximar as riquezas da área envolvente do Templo. Jesus não está a condenar a actividade comercial em geral, mas sim naquele espaço específico. Por outras palavras, a fé é caminho para outras realidades e o templo o espaço privilegiado para as mesmas.

Os tesouros, acumulados nos templos ou não, entre traças e ferrugem e atractivos para os ladrões, contra os quais Jesus alertou (Mt 6: 19-20; Lc 12: 33-34), foram, pelos grupos religiosos, utilizados para comprar favoritismos, influências, criar redes de corrupção. Nunca estiveram ao serviço de causas nobres, por mais que o queiram afirmar, ou então estiveram na directa proporção de quem dá um chouriço em troca de um porco gordo. Eles podem estar lavados pela fé que os dá, na ingenuidade de assim ganhar o céu, mas estão manchados de sangue no uso posterior pelas organizações religiosas.

O ritual é precisamente isso. A água ou o vinho são servidos pelo celebrante, em nome dos deuses/Deus, em taças do mais fino ouro, tal como o vinho nalguns ritos cristãos. O ritual, como se sabe, pretende ser uma representação mimética de algo muito importante que aconteceu em tempos idos, relembrando-o, é portanto um trabalho de memória, transportando os crentes para outro espaço, outros valores, outros significados, outras forças. No conjunto, são os elementos manipuláveis pela hipocrisia, inculcando no crente a ideia de que a oferenda o transporta a esse mundo. O factor religioso implementou no coração humano que esse mundo será tão mais generoso quanto a oferenda for generosa.

Por outro lado, a fé tornou-se egoísta, porque indiferente ao mau uso da oferenda e ao serviço do enriquecimento dos templos. Desenvolveu um sistema de trocas do tipo “eu dou para que tu me dês”, ou “eu dou porque acredito na tua força desmedida”. Esta prática tem feito parte de uma forma de perspectivar a religião como algo que se impõe ao homem/mulher, um artifício ou um postiço pela forma como tem descriminado os crentes: os mais ricos teriam supostamente um lugar entre os deuses/Deus que estaria completamente vedado aos pobres. Por outras palavras, os pobres eram duplamente marginalizados, míseros na terra e no céu.

Esta forma de fé dispensa grandes ideais de vida religiosa. No caso do Cristianismo dispensa o trabalho introspectivo de modificação interior, propósitos de santificação bem como o tornar factíveis princípios teológicos conducentes a uma vivência religiosa libertadora. Por exemplo, ir a uma romaria em honra de determinado santo é visto por muitos como um acto de fé, mas na maior parte dos casos trata-se de uma prática supersticiosa com o objectivo de exorcizar um mal.

Ora, para lá daquilo de que somos portadores intrinsecamente, bem como de todas as práticas exteriores de fé, torna-se imperioso que a religião eduque num rumo verdadeiramente emancipador, isto é, para a não dependência. Isto significa que é fundamental tomar consciência de que também se aprende a ter fé. A religião está a confrontar-se com essa realidade. Já não pode dar primazia ao aspecto ideológico, mas sobretudo a um projecto de libertação. Ter uma religião não é possuir uma ideologia como quem pertence a um partido político, mas seguir uma via com a qual o crente se identifica por exclusão de todas as outras, porém sem as rejeitar e respeitando-as. Ter uma religião é aderir a uma discursividade que coloca o crente desperto para a realidade, e não na espectativa do surgimento de um ser que a qualquer momento pode aparecer e fazer eclodir uma nova ordem no mundo. O pensamento religioso não é o pensamento mágico, nem os profetas são ilusionistas. Como é que isto é possível? Através de uma educação religiosa vocacionada para a experiência pessoal, as vivências culturais dos crentes, os seus objectivos emancipadores, a forma como emerge a sua fé.

O Espiritismo vai mais longe. Encara a fé numa duplicidade humana e divina, isto é, a fé não é religiosa. Isto significa que o nosso equilíbrio passa pelo bom uso das duas vertentes, a saber, o humano da nossa vivência terrena, mas simultaneamente o espiritual, sem pitafes dourados nem indumentárias complexas. Isto não significa que os condene, mas tão simplesmente que os considera desnecessários e obsoletos.

Por isso a fé é uma força que nos leva a agir deste ou daquele modo, é um impulso inexplicável. Mas não é uma força salvadora. A salvação só se consegue mediante a prática da caridade. Esta tese tem a sua raiz no pensamento paulista, o qual transfere a caridade para um lugar de uma superioridade de tal ordem de grandeza que implicaria sermos outros para a compreendermos. (ver O Evangelho segundo o Espiritismo, caps. XV, XIX).

Qualquer homem/mulher pode dizer-se cristão/ã ou budista, simpatizar com os seus aforismos ou as temáticas de perícopas que lhes são atribuídas. Contudo, seguir cada um dos profetas de uma forma livre e emancipada, mediante uma posição crítica e altruísta, tal proeza já não é para qualquer um. Jesus e Buda falaram para o mundo enquanto o conjunto de todos os seres humanos, superaram o Judaísmo e o Hinduísmo de então, respectivamente, fazendo cada um da religião o ponto de partida para voos mais altos, isto é, a transposição das barreiras ideológicas segregadoras, convidando todos os homens e todas as mulheres para o banquete da Paz universal.

Se tomarmos como referência o Novo Testamento, deparamos com o binómio seminal Baptista e Jesus. Caminham paralelos, remetendo-nos para a grande questão do arrependimento e do amor, respectivamente. Já em S. Paulo, entre a fé, esperança e caridade (nalgumas traduções amor (1), o que é mais abrangente e correcto), a maior é a caridade, não a fé nem a esperança, o que, no que diz respeito à fé, é bastante curioso.

Aprendemos que a fé é remetida para segundo ou terceiro plano, em detrimento de uma praxis vista como o modo como exteriorizamos uma vivência interior, tornando-a quase desnecessária ou mesmo silenciando-a. Faz todo o sentido. Fazer o bem não implica a fé, mas a fé sem a prática do bem é nula.

Parece que a fé tem muito que caminhar. Não é o mundo que a faz perigar, mas antes a sua fraca afirmação da gratuidade, a ascensão a um nível axiológico que encare Deus como libertador. Ainda temos pouca fé.

Sabemos que nos momentos complexos ela está lá, está sempre presente. Nesses momentos desenvolve a coragem e uma força incomensurável. É o tão característico grito de fé que tanto espanto nos causa, e que nos momentos em que tudo parece desabar algo se ergue a partir do nada. A fé é o nascer de tudo no meio desse nada.

Ainda não somos Abraão. Quanto a isso ainda estamos na outra galáxia. Mas somos transporte de uma Força sem nome nem imagem, ausente do nosso aparelho conceptual, que tem um Reino e que exige apenas o Bem para lá entrar. Não é apenas espectacular chegar à noção dessa Presença, é espantoso como falamos Dela, assim como é bela e grandiosa a Sua Revelação. A fé tem aqui o seu terreno fértil, mas somente quando estiver emancipada de crendices e da ilusão de poder onde ele definitivamente não está.

É inútil dizer que o mundo está em convulsão. Nunca deixou de o estar. O humano é um ser de problema e o nosso humanismo ainda não subiu aos degraus mais altos da tolerância, nem da cegueira do deslumbre. Ainda não estamos cegos de luz, mas de ignorância. Desconhecemos o deslumbramento da fé que transporta montanhas. Quando pronunciamos a palavra fé, o que dizemos concretamente? Algo desconhecido, mas é preferível o incómodo da ignorância ao abismo da falta de um referencial como aquele a que chamamos Reino de Deus.
Margarida Azevedo
1. Do gr. Ágape: afeição; amor fraternal; objecto da afeição; no pl. Ágapes, refeições fraternais dos primitivos cristãos.

As Testemunhas de Jeová traduzem por amor.
Bibliografia consultada:

KARDEC, A. L´Evangile selon le Spiritisme, Marly-le-Roy, Les Editions Philman, 2002, caps. XV, XIX, pp.237- 245; 294 – 302.

LINDBERG, Carter, História do Cristianismo, Lisboa, Editorial Teorema, 2007, cap. 9, Pietismo e Iluminismo, pp.167-180.

PEREIRA,I., S.J.Dicionário grego-português e português-grego, Braga,Livraria A.I., 1998.

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