sexta-feira, julho 20, 2018

AS LUZES DA RIBALTA


            Lindas e ofuscantes, atractivas e avassaladoras, a luzes da ribalta invadiram a cena religiosa conferindo um lugar ao sol aos seus líderes no cenário político das sociedades do século XXI. Vão longe os tempos da manipulação ideológica. Hoje vai-se mais longe. Já não é pelo medo do fogo do inferno, dos pecados mortais, do castigo implacável.

            Hoje fala-se de verdade, transparência,  liberdade, direitos e deveres dos leigos entupindo-os com falsas promessas. Não há melhor forma de garantir o sucesso que introduzir no discurso uma réstia de segredo revelado, verdades que supostamente permaneceram ocultas durante séculos, tornarem-se, perigosamente, manipuladas e acessíveis a todas as mentes.

            Por outro lado, não há religião que não queira ser reconhecida pelos políticos, não há orador que pretenda o anonimato. Isso significaria não ter nome na congregação, perder-se no emaranhado, embora tão complexo quanto perigoso, dos discursos manipuladores do que poderíamos chamar”sociologia religiosa”.

            Falsamente aceitando as verdades da Ciência, outros combatendo-as ferozmente, introduzem a juventude na resistência ao discurso científico, impondo-se por uma fé árida e oca. Mercê de uma vida em franco retrocesso econónico, as famílias desesperadas e o cenário de pobreza a aumentar,  sem falar das questões ecológicas, as religiões, quais empresas lucrativas, continuam, na sua maioria,  a prometer o céu ou o paraíso no outro mundo, numa irracionalidade sem tréguas.

            Noções como razão, vida, morte, mundo, eternidade, etc. são facilmente remetidas para Deus como o tubo de escape da ignorância. Assim, os discursos bem formulados, cheios de técnica de oratória, seguida a rigor pelos líderes religiosos, são facilmente aplaudidos pelos fiéis. Estes, adormecidos e acríticos, pensam ter a salvação garantida, tão simplesmente porque negaram a Ciência como um dos alicerces da nossa existência.

            Não contentes com isso, se tomarmos como exemplo o Espiritismo, criam-se denominações tais como “ciência espírita, filosofia espírita”, como se houvesse átomos espíritas, células espíritas, gripe espírita, automóveis espíritas.

            Esses oradores são os vip das organizações religiosas, de tal forma que, se é necessário angariar fundos para obras ou remodelações, eles são os convidados de honra porque se sabe que, de antemão, a sala vai estar cheia e o sucesso garantido.

            Ora  enquanto o religioso não tomar o seu devido lugar, que é ajudar os fiéis no seu caminho espiritual, facto que começa na educação, que significa, antes de tudo, escola da tolerância, está salvaguardado o ateísmo religioso.

            Se perguntarmos para que serve a religião, responder-se-á, e muito bem, para garantir alguma coisa. Ninguém está numa religião se esta não lhe der nada, não disser nada, não lhe conferir alguma estabilidade naquilo que a pessoa mais precisa. Mas o que acontece é isso? Cada um responda por si.

            A religião-espectáculo está a invadir o cenário religioso o que, numa amálgma de gente, se o orador não tiver bom-senso, pode, à rapidez do relâmpago, criar fanáticos prontos a fazer tudo o que lhes disser.

            O perigoso quanto apreciado dom de palavra do oraddor é meio caminho andado para que este se torne um líder bem sucedido, não sem que se tenha em conta o conteúdo do discurso. Considerado como um génio, uma voz de Deus, um profeta ele pode dizer o que quizer.

            Acredito que, um dia, ter-se-á a religião como o encontro fraterno de todos os viventes à face da Terra, humanos e não humanos, baseado na tolerância e onde não haverá importantes porque todos os seres trazem consigo um manancial grandioso da centelha divina.

            Unidos, acima de tudo, pelo muito amor ao próximo e ao planeta, amá-los-ão verdadeiramente, e Deus deixará de ser algo que pensa por nós, castigador implacável, em nome do qual grandes crimes se cometem, mas a fonte de onde jorra a paz universal, um referencial do lado inexplicável da vida.

            A vaidade do brilho envernizado dos belos discursos dará lugar à oração universal de louvor e glória a Deus. A fé deixará de ser um espectáculo, ou motivo de divisão, e passará a ser caminho de humildade.

            Quando as organizações religiosas deixarem de ter gente importante e influente virar-se-ão para o humano no seu caminhar vertical, rumo a um mundo que só Deus sabe qual é.

            Por enquanto, pequenos grupos fazem uma autêntica travessia no deserto, no anonimato, fiéis às suas convicções pacifistas e aos desígnios de Deus. Eles existem em todas as religiões? É possível. Na impossibilidade de as conhecer a todas, e dando voz ao optimismo da fé num Deus salvífico e Pai, não queremos duvidar que seja verdade.

            Margarida Azevedo

sábado, março 31, 2018

A CRUCIFICAÇÃO DE JESUS A GRANDE TRAGÉDIA DO OCIDENTE


            Fora das grandes temáticas existenciais da tragédia grega, lembremos Antígona, de Sófocles, em que os deveres de família e os da cidade entram em conflito; quando a tragédia é a tomada de decisão que vai contra uma ordem pré-estabelecida imanente à cidade, baseada numa opção em que a protagonista decide morrer em nome do cumprimento do dever para com a lei interior, a família, temos o trágico como ruptura entre o particular e o geral.

            Mas a tragédia não é apenas o terreno do conflito ético e político do humano em que os deuses tomam partido e o mito se impõe com toda a sua força como forma explicativa dos nossos problemas existenciais. A tragédia também é pertença do religioso monoteísta. A crucificação de Jesus conduziu a uma dimensão trágica da fé enquanto manifesação existencial de entidades em conflito. Com Jesus não temos propriamente o conflito entre geral e particular, mas o particular manifestante de uma tanscendência em oposição a alguns aspectos do geral.

Os tragiógrafos gregos, muitos séculos antes de Cristo, mergulhados no mais fundo sentido do mito, jamais conseguiriam pensar uma realidade como esta. Jesus não é uma abstracção que se impõe, reflexiva, a algumas práticas judaicas de então, mas um homem que, muito embora fiel à sua fé judaica remete a mesma para uma interioridade que, pelo muito amar, é voz directa de Deus. Imanente e transcendente encontram-se na cruz como máximização da fé. Jesus não foi o profeta da política nem da economia, mas deu os trunfos para, mediante o Amor e nada mais, conduzir o homem/mulher à mudança do rumo da História.

            A dimensão trágica entra também perante a realidade de um judeu (lembremos, antigo discípulo de João Baptista),condenado à morte como zelota (radical insurrecto e extremista, mas que ele nunca o foi); temido como possível rei dos judeus; blasfemo porque, talvez, messias (o que ele não queria ser, Mc 1:44); crítico da estagnação numa tradição que, muito embora identificadora de um povo, tem que naturalmente submeter-se ao progresso, que não significa anulação mas complementaridade; seguidor/defensor da Lei/profetas, nomeadamente Jeremias e Isaías; pregador provinciano desejoso de se isolar (Mc 1: 40-45), e, no fundo, insignificante.

            Os Cristãos têm-se esforçado por legitimar o mal-entendido desta condenação e, simultaneamente conferir-lhe uma continuidade teológica: Jesus é o Messias proclamado pelos profetas do antigo Israel. Ora nem as profecias eram para tão longo espaço de tempo, nem o messias seria, pela sua própria natureza messiânica, dependente de uma profecia. O sonho colectivo de um povo, geralmente, não é coincidente com os factos históricos nem com as dinâmicas da fé. O que caracteriza o humano é a sua imprevisibilidade, e Deus não obedece aos homens/mulheres. Uma das tragédias humanas é precisamente a da ilusão de que diz o que Deus é, superlativizada aquando da colagem a um profeta.

            Quanto ao texto bíblico, este representa a esperança de um povo que pretende viver autonomamente, esperançoso de que venha um Enviado trazer um modelo de governação que sintetize história/fé, política/religião. Isto faz todo o sentido. A fé é tão terrena como a esperança ou desejo de libertação. Uma fé não libertadora, isto é, não praticável na realidade existencial, é uma quimera. A fé tem que ser uma resposta.

            Os Cristãos  foram construindo um messias que, a pouco e pouco, se distanciou do mundo terreno, projectando o objectivo da sua existência no para lá, um Reino de Deus longe do mundo. Os Judeus, contrariamente, pretendiam um messias totalmente voz de Deus mas no mundo, o que significa que sem mundo Deus está-nos vedado, e sem a fé em Deus não temos fundamento existencial para o mundo.

            E a questão impõe-se: Jesus é messias ou não? O messias já veio ou está para vir? Pregador do Reino de Deus através do Amor, estamos em presença de uma reafirmação de que a política e a fé são compatíveis: o governante é um messias na medida em que muito ame o seu povo. À semelhança da noção de falsos profetas de que falou o jovem Jeremias, os quais não são apenas os videntes ao serviço de forças malignas (Jr 14:13-16), como pensam alguns, infelizmente, mas os que profetizam em seu nome pessoal (idem), mas de políticos que pregam no Templo e na sinagoga uma coisa e que, no acto de governar, não cumprem com os parâmetros que lêem na Lei. A falsa profecia é todo um conjunto de interesses particularistas, tornando redutível a prática da Lei a um pequeno espaço, o lugar de culto e de estudo. Repare-se que todos os profetas desempenharam um papel importante no momento histórico em que viveram, aliás, a dimensão historico-política é indissociável dos seus discursos proféticos. Veja-se o exemplo das grandes temáticas de então: leis injustas, Is 10:1-2; grande propriedade, Is 5:8-10; baixos salários, Jr 22:13-15; pesados impostos, Am 2; 8; 5:11, juntamente com as grandes reflexões religiosas: falsos profetas, Jr 14:13-16; a idolatria, Jr 44, ou ainda aspectos estruturantes da sociedade: luxo, Is 3:18-24; escravatura, Jr 34:8-11.

            Ora a tragédia em torno da crucificação de Jesus situou-se mais no campo político do que propriamente religioso. Depressa a perseguição a grupos religiosos aos quais impunham a culpa da crucificação conduziu a conflitos evitáveis. Tornou-se uma questão cultural e psico-social, esvaziando o verdadeiro sentido messiânico e profético. Neste quadro, Jesus é o profeta libertador para lá do político e do religioso particulares na medida em que ensina um novo modelo de conduta: a universalidade da Lei só faz dentido mediante o Amor, ou seja, governar é um acto de amor supremo;  de um ponto de vista religioso, o bem amar agrada a Deus e garante o Banquete no Seu Reino. O Messias é um conciliador. Fora disto prolonga-se a tragédia de Jesus na Cruz e não a paz libertadora da Ressurreição; culpam-se uns, inocentam-se outros, sem perceber que os homens/mulheres são protagonistas quer na dimensão trágica como na libertadora; todos são prisioneiros em terra estrangeira e todos procuram a Terra Prometida. Em Jesus é o Reino de Deus.

            Mas onde é esse reino? Num mundo distante onde, ao ingressarmos seremos automaticamente bons e generosos? Um mundo que se nos revela somente após a morte? Um mundo paradisíaco de árvores de fruto coloridos e perfumados, de leite e de mel? O reino de Deus é aqui e agora, neste mundo, neste momento. O que se é aqui é-se em qualquer parte. O povo de Deus é o povo da paz espalhado pelo mundo.

            Fazer de Jesus um messias ou não não torna ninguém melhor ou pior. A fé pode tornar-se o grande mal se escravizada às convicções quando tidas como as únicas. A fé sem liberdade não é fé, mas uma confusão perigosa de ideias ao serviço do demoníaco. O infiel é alguém que crê apenas de forma diferente.

            Curiosamente, o Messias é reconhecido sem rodeios e sem dúvidas, em toda a plenitude, não por Judeus nem por Cristãos, mas pelos Espíritos imundos (Mc 3:11). Há aqui uma dimensão existencial que remete, inevitavelmente, para o enigma. Desta forma, a grande questão prevalece: Quem é Jesus? Podemos afirmar que os Espíritos imundos são as trevas e que só estas sabem quem é Jesus? A identidade de Jesus só é perceptível pelo imundo? O que é o imundo? Quem somos nós? Que Jesus representamos nas nossas cabeças/corações? Que noção temos da sua identidade? Que retrato fazemos dele?

            Cristãos, que imagem têm dado de Jesus ao longo da História? Que papel desempenhou a crucificação para as congregações cristãs? A História é a sequência de actos que acontecem no tempo e no espaço e, se não se aprender a enterrar o passado para dar lugar a um presente de paz, continuar-se-á a crucificar Jesus no Calvário da ignorância e a fazeer da nossa existência uma tragédia.

            Onde é que estavam os apóstolos quando Jesus foi crucificado? Onde estamos nós, judeo-cristãos dois mil anos depois? Em que lugar nos colocamos na História? As respostas são diferentes segundo os evangelhos. Jesus viveu a tragédia da solidão, o esvaziamento do humano nos momentos difíceis, a fragilidade das suas convicções quando elas eram mais necessárias. Porque desceu ele aos infernos das nossas precaridades, da nossa ignorância? Que fragilidade na força e que força na fragilidade nos quis transmitir?

            A Páscoa de Jesus é a Páscoa de Judeus e Cristãos. A passagem, a grande Passagem à consciência do trágico da Fé e da História que só pelo Amor é possível de ultrapassar. Não podemos continuar a permitir que o imundo se sobreponha ao mundo. Este judeu conferiu à Lei a maior força que se lhe pode dar: o Amor.

            Celebre esta Páscoa como a passagem à liberdade da alma, a proclamação de uma nova noção de beleza, a de comer em qualquer mesa sem preconceitos. Desejo-lhe uma Santa Páscoa.

Margarida Azevedo

 

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Sites consultados

obomministro.blogspot.com

pt.wikipedia.org/wiki/Jeremias

revistas.ufpr.br/vernaculo/article/viewFile


Bibliografia consultada

NEVES, Pe. Carreira das, As Grandes Figuras da Bíblia, Profetas, pp. 156-339, Editorial Presença, Lisboa, 2010.

SOFOCLES, Antígona, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2012.

 

Bíblia Consultada

Antigo Testamento, vol.III, Os Livros Proféticos, trad. de Frederico Lourenço, Quetzal, Lisboa, 2017.

Novo Testamento, vol.I, Os quatro Esvangelhos, trad. de Frederico Lourenço,, Quetzal, Lisboa, 2016.