sexta-feira, abril 14, 2017

PÁSCOA - SOMOS UMA HUMANIDADE DE RESSUSCITADOS

 

            Do cativeiro para a liberdade, da dor para a alegria, do desespero para a esperança, é tempo de reflectir sobre o significado da vivência pascal nos nossos dias.

            Há séculos que este episódio se repete em rituais, orações e preceitos. É tempo de se lhe acrescentar a vivência interior, perceber o que significa ser livre, ser libertado por um Ser invisível, mas que se revela mediante a Sua presença na história do mundo. Por outras palavras, um deus que não seja mundo não é Deus; o Seu reino é o reino do mundo, porque um rei não governa apenas o seu palácio mas todo o reino.

            Celebrar significa desnudar o lado invisível, assentar na terra a consciência de que Deus está presente em cada momento, em cada gesto, em cada palavra; celebrar o céu e a terra, não numa contiguidade, mas como uma unidade, uma realidade única. Vivemos num só reino.

É desta forma que a mensagem de Jesus entra no mais recôndito da alma, transformando cada homem e cada mulher num responsável espiritual, um líder da oração e da paz na sublimidade da fé. Ao lembrarmos a Última Ceia somos levados, inevitavelmente, à memória de Jerusalém daquele tempo. Eternizamos na nossa mente a acção dramática de um episódio que se tornará determinante da espiritualidade do ocidente: Aquele partir do pão, aquele vinho celebram o lado concreto da dimensão espiritual, o tangível, visível e palpável; o pão e o vinho que outrora foram da miséria, tomados num país estrangeiro, em cativeiro.

Por isso a comunhão de mesa é um gesto intimista, de alegria. Efectivamente, nada existe de mais feliz que partilhar uma refeição com amigos. De que serviria ressuscitar se, à chegada, não houvesse alguém de braços abertos numa recepção em alegria? Ressuscitar é aparecer perante alguém num abraço, num caminho qualquer, em qualquer momento. Todos os momentos são bons para ressuscitar. Os cristãos lembram a ressurreição como determinante para a sua fé. Ora é tempo de a lembrar como um episódio da carne que se tornou espírito, na  medida em que o Espírito habita na Carne, em cohabitação, na partilha de uma origem comum. Em nome de um Deus que criou e se revelou ao mundo, a Vida Eterna é mundo, ao lado de quaisquer episódios na densidade do mundo. Na verdade, somos todos ressuscitados.

Assim, uma multiplicidade de questões pairam sobre as nossas cabeças: Onde está a nossa pedra removida? Que anjo no anunciam? Quem nos vem procurar ao túmulo? Quem nos unge e com que perfumes? Que caminhos escolhemos para dar de caras com quem não nos espera? Que mensagem transportamos? Que universo de esperança testemunhamos? Onde está o Sinai da nossa fé, da Lei que seguimos? A que povo  pertencemos?

A fé transporta-nos para a procura do nosso Monte Sinai. Em cada Páscoa não é do Egipto que nos aproximamos, mas da Terra Prometida na esperança de que algo se revele,  que apresente soluções viáveis e definitivas através das quais nos sintamos mais próximos de Deus, pois não são novas leis o que procuramos, mas novas propostas de vivência das que já temos, ajustes objectivos às realidades caóticas dos nossos dias.

Há muito que a Páscoa não tinha um sentido tão incisivo. Que o digam todos os que fogem da morte em cenários de guerra, os deslocados, os aflitos, os que choram, os desempregados, os que engrossam os números largos da indigência, os que servem para tudo. Que passsagem no catastrófico, no caótico, na indiferença? Que páscoa? Que esperança?

Onde está Deus?, pergunta-se sempre nos momentos-limite. Como viver desprovido de projecção para o amanhã se se vive um vazio, um presente oco? Deus parece continuar a ocultar-se. Porém, perguntar por Deus é perguntar por nós mesmos, a ocultação de Deus é a nossa ocultação: se me escondo de ti, então tornas-te oculto para mim. Onde está o futuro para Deus se não há homens/mulheres que O reflictam? Associamos a Deus o futuro, habitualmente. Esquecemos-nos de que a construção de Deus dentro de nós é presente. Nós não temos futuro pascal, temos um presente na memória de uma fé que é imortal.

Jesus desejou ir a Jerusalém pela Páscoa. Foi a pior altura para o fazer. A festa da Libertação para a Terra Prometida; o mesmo povo estava agora retido pelo o invasor romano, que, obviamente, não via tais festejos com bons olhos. A cidade transbordava de gente que a ela acorria vinda de todos os lados; o comércio dos animais para os holocaustos era intenso, circulavam diferentes moedas justificando a presença de numerosos cambistas.

Temos um crucificado que, na ignomínia da cruz, crucifica com ele a grande questão da humanidade: Porque sofremos? Simultaneamente, desfatalizou a lado errado da vida, num universo de esperança sem fim. Não estamos no sofrimento porque sim, estamos nele de passagem. A Cruz muda o sentido existencial do sofrimento para dar lugar ao conceito de eternidade em louvor e graça, no banquete do reino de Deus. O sofrimento é a realidade pascal no exemplo de Jesus juntamente com a lembrança de um povo que fora subjugado. Talvez seja essa a intenção de Jesus na ida a Jerusalém: não querer deixar de partilhar com os discípulos nem privá-los de celebrar a identidade do seu povo, porque a defesa de uma identidade acarreta, inevitavelmente, responsabilidades, e a maior de todas é, com toda a certeza, a construção da Paz.

Que a Páscoa seja cada vez mais uma celebração comemorativa, algo que aconteceu há muito, muito tempo, e não realidade de um presente no qual ainda há um povo que espera, ansioso, pela sua libertação.

 

            Margarida Azevedo

sexta-feira, março 31, 2017

O OUTRO, EU E A VERDADE


“O que é a verdade?”

Jo 18:38

 

Uma trilogia basilar. A eterna problemática do dentro e o fora de nós, o que se revela e o que se oculta, mediante um móbil, a Verdade.

Vivemos numa casa onde mora a relação entre o eu e o outro; a dialética entre a mesmidade e a alteridade, temática importante da filosofia, em geral, e do cristianismo, em particular: Quem é o outro? Quem sou eu? Também dois elementos fundamentais para o pensamento religioso fora do cristianismo, historicamente abordados de formas diferentes.

Porém, sejam as doutrinas religiosas tidas como construções humanas ou de Espíritos do outro lado da vida, sem esquecermos que esses mesmos Espíritos mais não são do que as almas dos que por cá viveram, e tendo em consideração que perfeito só Deus, nunca é demais lembrar que todas são doutrinas falíveis, o mesmo é dizer que são mais os discursos alucinados dos que os discursos assertivos.  

A Verdade é uma construção sem fim, que implica partilha, tão infinita como infinito é o eterno renascer. Procurá-la confunde-se com a descoberta de si próprio em alteridade face ao outro mas com ele, e porque ele,  numa revelação contínua e perene. Dependente de uma infinidade de factores, por exemplo sociológicos, não apenas religiosos, a Verdade fragmenta-se em verdades que, hoje, podem não o ser amanhã. Por outras palavras, a procura da Verdade é resultante de uma instabilidade que nos causa desconforto. Queremos  o contrário, a estabilidade, o imutável, algo a que não seja possível acresccentar mais nada, que se baste a si próprio e nos traga a felicidade.

A Tora aborda a questão existencial que preside à História, “E disse o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão?” (Gn 4:9). Isto significa que estamos em presença do que podemos chamar o fratricídio das origens. Se partirmos da tese de que a procura da Verdade é um trabalho conjunto e não solitário, este crime representa, à partida, e nosso fracasso na sua procura. Estamos existencialmente barrados à Verdade. O fratricídio das origens indicia o facto de não possuirmos uma natureza compatível com tal mercê.

 Percebamos que Caim e Abel são duas realidades culturalmente opostas: Caim, agricultor, sedentário; Abel, pastor, semi-nómada. Duas profissões diferentes que correspondem a altares diferentes, a ofertas diferentes: Caim, produtos da terra; Abel primícias dos animais (gordura). O texto não explica porque é que o Senhor se agradou da oferta de Abel e não da de Caim, o que sabemos é que o fenómeno religioso parece estar ligado, nas suas origens, a um fenómeno discriminatório; consequentemente, o desejo de ser alvo de agrado conduziu à violência. Por outras palavras, os primórdios do religioso não tem que ver com a docilidade, uma vivência romântica e apaixonada, mas uma resultante da discriminação de Deus. “Onde está o teu irmão?”, será sempre a questão ímpar na História das Religiões.

Assim, o fratricídio conduz à reflexão sobre o outro, na medida em que ele é peça fundamental das procuras incessantes do eu. Porém, o terrível pecado de Caim não se insurge como uma ruptura com Deus, nem uma negação da Sua existência, diríamos nós hoje, mas porque quer fazer notar  e sobrepor o seu altar. Ora o factor religioso não pode anular, ocultar e justificar o crime. A religião não pode ser considerada uma fuga e uma justificação de actos ignóbeis; a Verdade não é um conjunto de acções que acompanham os momentos históricos, são estes que, aprimorando-se, criam as condições necessárias para que a Verdade se manifeste, ou melhor, se revele, tal como Deus se revelou ao longo da História aquando de momentos a isso favoráveis.

No questionar sem fim deste episódio, revelador da nossa natureza, pergunta-se: Que ameaça surge tamanha que supera aquilo que, no nosso processo evolutivo, é capaz de superar e impor-se aos laços da consanguinidade fraternal, que neste mundo parecem ser os mais fortes e estáveis? Que ameaça representa Abel para Caim? Além disso, neste episódio, Deus não é apenas um ente religioso, passa a ser uma questão familiar, social, política, histórica. Aliás, o Deus religioso deste episódio é problemático na medida em que, se assumir o fratricídio no altar das oferendas, sobrepõe a dádiva à vida humana, o que seria um contrasenso

Como contextualizar este espisódio no século XXI? Continuaremos rendidos ao medo de que o outro seja o preferido, à procura de uma verdade única, sectária, criadora de ídolos, projectada num para lá ou num tempo imaginários; uma verdade castrante e desfuncional, impraticável e isolacionista? Continuar-se-á a querer impor as nossas oferendas, como as únicas dignas de atenção, valorando o pessoal como sinónimo de verdadeiro?

Não temos tamanho para o Absoluto, Deus não cabe nas nossas cabeças, mas devemo-nos o bom senso de que, onde nos encontramos, estamos rodeados de uma multiplicidade de caminhos cuja adesão se baseia em factores geo-culturais. Os comportamentos de hoje, para alguns crentes, relativizaram-se face àquilo que crêem como verdade. O problema agora é como conquistá-la nos mesmos moldes fora do contexto geo-cultural onde a crença germinou e se desenvolveu. Globalizar significa, incontestavel e simultaneamente, anulação e contágio, isto é, há elementos que fora do seu habitat não conseguem sobreviver, há outros que, perante a novidade, se implementam porque em terreno fértil.

Quando dizemos “a minha fé”, à partida, referimo-nos, pela natureza intrínseca da fé, a uma conjuntura primeira: eu mais o algo em que reconheço alguma transcendência, que pode ser Deus ou uma Pedra. Há um suposto poder atractivo, no desconhecido ou no concreto, que nos leva a crer num ou noutro ou em ambos, porque também cremos em forças opostas, ou supostamente classificadas como tal: o concreto também é transcendente e vice-versa, e o mesmo acontece com o desconhecido.

Mas o problema não está, essencialmente, aí. O problema reside no modo de estar na fé, confundindo-a com a Verdade. Se o crente pensa que a sua fé se constitui como uma verdade suprema e intransponível, a única verdade, seja Deus, seja uma Pedra, então cai na não fé, pois segundo as suas convicções atingiu a verdade, sem se dar conta de que é da natureza da Verdade a Perfeição; desconhece que não há, nem poderia haver, doutrinas que encerrem tudo o que há para dizer do alvo da fé, seja Deus ou uma Pedra.

Ora a Verdade não é o encontro das minhas respostas existenciais, a revelação de um fim programado de uma forma de fé. Dizer eureca não significa instalarmo-nos confortavelmente numa verdade eterna num mundo onde estamos de passagem. Não podemos antecipar a escatologia existencial de uma vida em mutação porque ela não reside, certamente, num amanhã sombrio, fantasioso, imaginário, impossível de ser descrito pelos nossos meios. As nossas descobertas são as aporias dos nossos escassos conhecimentos em que nos confrontamos com a não resposta para os nossos problemas mais simples, se é que há problemas simples. Por exemplo, falamos de mundo, mas não sabemos o que é o mundo, tal como falamos de verdade sem sabermos o que isso é. Vivemos demasiado mecanizadamente, demasiado estruturados, preparadíssimos para aceitar o desconhecido como conhecido. Tudo o que somos e procuramos é demasiado complexo;  eterno retorno da nossa linguagem inspirada na natureza, da qual a palavra verdade toma contornos ameaçadores, isto é, “Se eu encontrasse a Verdade, que faria com ela?”, mais, como reconhecê-la?

Além disso, quem diz que a Verdade é pertença única e exclusiva do universo religioso? Fora desse universo há toda uma vivência que lhe confere legitimidade, e o contrário também se verifica. Não podemos esquecer que somos seres construtores de mitos; as fantasias que criamos são o reflexo das nossas almas; as histórias que contamos à noite para adocicar os sonhos, pois a nossa estrutura psíquica não consegue arcar com a realidade nua e crua, o que provoca insónia, ajudam-nos a sonhar e ir aprender, falar e ouvir o  que não é possível durante a vigília.

É tão importante estudar os mitos das origens como os átomos e os líquenes; estudar as células que constituem o nosso corpo, A Bela Adormecida  e proferir orações. Lembremos a alegoria da caverna (de Platão) que nos  conduz a uma reflexão objectiva sobre uma realidade concreta: estamos de costas viradas para a realidade, presos numa caverna… Ou o big-bang explica tanto as origens do mundo como as teogonias. Nada.

Porque é que o céu é azul e não verde? Porque ficamos com rubor e não azulamos quando algo nos deixa desconfortáveis? Se não temos resposta para questões tão aparentemente simples, como podemos falar da Verdade? Os crentes têm feito da fé um aprisionamento a uma suposta verdade que, no fundo, é a fantasia de que saíram do aporético e que já estão no caminho certo e definitivo para o Reino de Deus.

Ora a verdade é um conceito antropológico, antes de ser outra coisa qualquer: uma fantasia sobre as nossas cabeças. O animal luta por sobreviver, o homem acrescenta-lhe mais qualquer coisa. Somos um corpo/temos um corpo. Este corpo, em Paulo (1 Tess 5: 3-8) está fora do pecado, é apenas o lugar onde o pecado está inscrito. Esta a riqueza do homem, nisso consiste o seu lado humano. É pelo pecado que procuramos a Verdade; se Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida, então é aquele que, perante nós, e não podemos falar perante mais ninguém, é sem pecado.

Caim e Abel, a história das nossas origens religiosas que, ao longo das sucessivas existências, nos induzem à única vivência que merece o nome de Verdade: mudar o rumo da História e fazer dela a mundivivência de todos os seres que se amam. Não podemos anular o crime que está cometido, mas podemos perdoar. A Verdade inerente ao fratricídio é que temos que aprender a viver sem o fantasma do ciúme. As religiões não encerram a totalidade desta procura, são uma ínfima parte; estão de passagem como as almas dos homens e das mulheres por este mundo.

Recostar-se confortavelmente numa doutrina é fechar-se e fechá-la ao progresso, em todos os níveis: científico, religioso, civilizacional. A natureza humana está profundamente marcada pelo infinito, o sem fim da insatisfação, o não basta. Vivemos uma busca permanente na ânsia de encontrar um porto de abrigo onde repousem, para sempre, os nossos anseios de paz e salvação. Mas isso é, por hora, uma quimera.

Quanto à pergunta de Pilatos, Jesus silenciou, porque não veio definir mas dar testemunho da Verdade (Jo 18: 17). Para quê definir o que não é possível encerrar nas nossas linguagens?

 

Margarida Azevedo

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Bíblia consultada:

Trad. de J. F. de Almeida, Bíblia Sagrada, Sociedades Bíblicas Unidas, Lisboa, 1991,  Gn 4; Jo 18; 1 Tess 5.