quarta-feira, julho 26, 2017

UM DEUS DE ALIANÇA


 

            Protagonistas de uma vivência da história em que somos confrontados com a nossa natureza densa, paradoxalmente ou não, a mesma torna-se mote para a transcendência na procura incessante do súbtil, do silêncio de uma voz que, poderosa, apela ao lado belo de nós mesmos. Assim se define o nosso viver como uma revelação constante, imparável, rumo a um outro mundo dentro deste mundo.

            Com isso nos identificamos com o Invisível que, mediante os nossos desconfortos de crentes cheios de dúvidas, nos faz reflectir sobre Deus como aquele Ser cujo mundo não pode ser outro senão o nosso; nos eleva à condição do humano como o outro ser que, de tão feito de pó, é simultaneamente tão ar, tão força, tão presença de Deus lembrando que se o filho tráz a marca do pai, logo não seria possível ao humano não transportar a marca do seu Criador.

            As crises da fé não são o descreditar na existência de Deus, antes as nossas zangas, à semelhança de Job que, caído em desgraça, revolta-se contra Deus perante Deus - talvez se assim não fosse estivéssemos a negar a existência do próprio humano. Mas não, estamos em crise aquando do espanto da nossa semelhança com Ele; o desconcerto da Sua presença num mundo tão ignóbil; a existência de uma Aliança com seres como nós. Na nossa finitude, poderíamos afirmar que Deus se enganou ao aliar-se ao humano, que provavelmente teve pressa, que podia ter aguardado que nos purificássemos, previamente, ou pelo menos sermos um pouco bonzinhos.

            Se assim fosse, qual a natureza desses hipotéticos escolhidos? Certamente não seriam tão humanos como nós, e Deus seria o criador para alguns, não para todos; manifestar-se-ia a escolhidos tão subtis que não caberiam nos nossos padrões de humanidade. As organizações cristãs têm-se dedicado a criar dessas superioridades como galináceos, esquecendo-se de que uma igreja não é um aviário, nem os seus dirigentes ou pregadores criadores de gente com pedigree.

            Ora, a Aliança é uma revelação desconcertante. Não pretende diferenciar o humano a partir de qualidades que lhe nâo são próprias; não é uma escolha pela superioridade, o que iria abafar o ideal de humildade e o simples que é ter fé. Pelo contrário, é dentro da insansatez, do comezinho, do banal que Deus se manifesta, porque eles são a nossa natureza, a nossa identidade e porque sem eles não precisaríamos da fé. A Aliança confere sentido, outro sentido, talvez, à nossa existência, reforça a nossa humanidade. Dizemos outro porque não sabemos se o nosso sentido é mesmo nosso, construção existencial da nossa experiência, e ao qual se sobrepõe outro, o divino; ou então se identificam, apenas com momentos peculiares, acções diferenciadas no palco vivencial humano. De qualquer forma, há uma presença que nos aceita como somos, ou então, salvífica, pretende libertar-nos de nós mesmos, em parceria connosco. É que nós somos o outro lado da Aliança

            Em Camões, humanos e deuses confundem-se, trocam de naturezas. A vontade de vencer dos humanos não conhece limites, e os deuses invejam-lhes a natureza por isso. Possuídos por forças sobrenaturais, não mais que humanas e sem limites exaltadas,  enfrentam as forças do Mal com mais coragem e destrezado do que o fazem as forças do Bem. É que o sobrenatural camoniano significa o que escapa à natureza dos deuses, não o que escapa à natureza humana; é o que está fora do comum dos mortais, pertença única daqueles que da morte se libertam.

Mas também é uma demonstração de até onde o poder do sonho conduz o sonhador. Assim, porque os deuses não sonham, senão não eram deuses, espantam-se com a heroicidade dos humanos desmesurada, movida pelo engenho e arte da fé, que também é sonhadora. A ocidental praia lusitana revelou-se-lhes, assim, mostrando ao mundo, mediante o seu exemplo, que a vontade de vencer o medo do desconhecido se sobrepõe a todas as vontades. Descobrem os deuses, mesmo os do Bem, que o humano possui uma coragem, uma força de querer capaz de enfrentar até os feros mares e os seus mostrengos, traça objectivos que persegue com todas a suas forças, nem que para isso faça perigar a sua própria vida, sacrificando-a no altar da coragem sem fim.

            Mas o Deus da Aliança dispensa corajosos para enfrentaar os oceanos. Navegantes da fé, somos a Sua obra promissora, aqueles que não precisam de trocar de identidade com Ele para mostrarem quem verdadeiraamente são. Apenas mudamos de nome sempre que um passo em frente damos na luta contra os nossos monstros internos.

            Somos aliados de Deus na medida em que, com a nossa finitude e apesar dela,  somos capazes de enfrentar todas as vicissitudes. E, tal como em Camões, o Mal é vencido; só que, para este, ele continua lá, rebaixado, na Aliança será para sempre aniquilado, porque o Bem não se compadece com aqueles que o rejeitam.

            Como nos contos de fadas, o Bem não é uma transformação do Mal. O Bem é bem por ele mesmo, é de outra natureza. A fada má, a bruxa má, enfim, serão definitivamente aniquiladas pelas suas congéneres do Bem; o herói sai vitorioso na medida em que lutou sempre, humildemente,  sendo recompensado com a felicidade sem fim.

            É isso a Aliança, a certeza da felicidade sem fim, neste mundo quando o amarmos como a um filho; ou no outro quando ambos se fundirem no mesmo ideal de paz, apesar das suas naturais diferenças. Crentes em Deus, não nos sentimos projectados para o desconhecido. Há quem viva a loucura de uma vida terrena à procura de benefícios no outro mundo, traçado à sua imagem e semaelhança mesquinhas. São os insensatos que nem conseguem perceber que não é com ideologias que Deus estabelece a Sua Aliança, mas com quem está apaixonado pela vida. 

            As nossas crises, que tão banalizadas são, as nossas angústias, o desespero, o sofrimento, numa palavra, são desafios para a fé, são materiais para a construção de um outro tempo, uma realidade que há de vir. Mas há tanto por viver hoje, o dia ainda não acabou, ainda temos tantas coisas a realizar, aqui e agora. A noção de Deus que transportamos é a que espelhamos na história que vamos construindo num presente contínuo.

            A Aliança é a certeza de que há um Ser que vive connosco a tempo inteiro. Deus não é uma presença em part-time. Quanto a nós, basta dizer: “Senhor, habita na minha casa, hoje e sempre!”  Ou, como Francisco de Assis: “Senhor, faz de mim um instrumento da Tua paz…” ou, como diz o salmista: “ Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a Tua benignidade; apaga as minhas transgresssões, segundo a multidão das tuas misericórdias. Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova em mim um espírito recto.” (Sl 51:1; 10) *.

 

            Margarida Azevedo

·         Bíblia consultada, trad. de J. F. de Almeida, 1991.

sexta-feira, abril 14, 2017

PÁSCOA - SOMOS UMA HUMANIDADE DE RESSUSCITADOS

 

            Do cativeiro para a liberdade, da dor para a alegria, do desespero para a esperança, é tempo de reflectir sobre o significado da vivência pascal nos nossos dias.

            Há séculos que este episódio se repete em rituais, orações e preceitos. É tempo de se lhe acrescentar a vivência interior, perceber o que significa ser livre, ser libertado por um Ser invisível, mas que se revela mediante a Sua presença na história do mundo. Por outras palavras, um deus que não seja mundo não é Deus; o Seu reino é o reino do mundo, porque um rei não governa apenas o seu palácio mas todo o reino.

            Celebrar significa desnudar o lado invisível, assentar na terra a consciência de que Deus está presente em cada momento, em cada gesto, em cada palavra; celebrar o céu e a terra, não numa contiguidade, mas como uma unidade, uma realidade única. Vivemos num só reino.

É desta forma que a mensagem de Jesus entra no mais recôndito da alma, transformando cada homem e cada mulher num responsável espiritual, um líder da oração e da paz na sublimidade da fé. Ao lembrarmos a Última Ceia somos levados, inevitavelmente, à memória de Jerusalém daquele tempo. Eternizamos na nossa mente a acção dramática de um episódio que se tornará determinante da espiritualidade do ocidente: Aquele partir do pão, aquele vinho celebram o lado concreto da dimensão espiritual, o tangível, visível e palpável; o pão e o vinho que outrora foram da miséria, tomados num país estrangeiro, em cativeiro.

Por isso a comunhão de mesa é um gesto intimista, de alegria. Efectivamente, nada existe de mais feliz que partilhar uma refeição com amigos. De que serviria ressuscitar se, à chegada, não houvesse alguém de braços abertos numa recepção em alegria? Ressuscitar é aparecer perante alguém num abraço, num caminho qualquer, em qualquer momento. Todos os momentos são bons para ressuscitar. Os cristãos lembram a ressurreição como determinante para a sua fé. Ora é tempo de a lembrar como um episódio da carne que se tornou espírito, na  medida em que o Espírito habita na Carne, em cohabitação, na partilha de uma origem comum. Em nome de um Deus que criou e se revelou ao mundo, a Vida Eterna é mundo, ao lado de quaisquer episódios na densidade do mundo. Na verdade, somos todos ressuscitados.

Assim, uma multiplicidade de questões pairam sobre as nossas cabeças: Onde está a nossa pedra removida? Que anjo no anunciam? Quem nos vem procurar ao túmulo? Quem nos unge e com que perfumes? Que caminhos escolhemos para dar de caras com quem não nos espera? Que mensagem transportamos? Que universo de esperança testemunhamos? Onde está o Sinai da nossa fé, da Lei que seguimos? A que povo  pertencemos?

A fé transporta-nos para a procura do nosso Monte Sinai. Em cada Páscoa não é do Egipto que nos aproximamos, mas da Terra Prometida na esperança de que algo se revele,  que apresente soluções viáveis e definitivas através das quais nos sintamos mais próximos de Deus, pois não são novas leis o que procuramos, mas novas propostas de vivência das que já temos, ajustes objectivos às realidades caóticas dos nossos dias.

Há muito que a Páscoa não tinha um sentido tão incisivo. Que o digam todos os que fogem da morte em cenários de guerra, os deslocados, os aflitos, os que choram, os desempregados, os que engrossam os números largos da indigência, os que servem para tudo. Que passsagem no catastrófico, no caótico, na indiferença? Que páscoa? Que esperança?

Onde está Deus?, pergunta-se sempre nos momentos-limite. Como viver desprovido de projecção para o amanhã se se vive um vazio, um presente oco? Deus parece continuar a ocultar-se. Porém, perguntar por Deus é perguntar por nós mesmos, a ocultação de Deus é a nossa ocultação: se me escondo de ti, então tornas-te oculto para mim. Onde está o futuro para Deus se não há homens/mulheres que O reflictam? Associamos a Deus o futuro, habitualmente. Esquecemos-nos de que a construção de Deus dentro de nós é presente. Nós não temos futuro pascal, temos um presente na memória de uma fé que é imortal.

Jesus desejou ir a Jerusalém pela Páscoa. Foi a pior altura para o fazer. A festa da Libertação para a Terra Prometida; o mesmo povo estava agora retido pelo o invasor romano, que, obviamente, não via tais festejos com bons olhos. A cidade transbordava de gente que a ela acorria vinda de todos os lados; o comércio dos animais para os holocaustos era intenso, circulavam diferentes moedas justificando a presença de numerosos cambistas.

Temos um crucificado que, na ignomínia da cruz, crucifica com ele a grande questão da humanidade: Porque sofremos? Simultaneamente, desfatalizou a lado errado da vida, num universo de esperança sem fim. Não estamos no sofrimento porque sim, estamos nele de passagem. A Cruz muda o sentido existencial do sofrimento para dar lugar ao conceito de eternidade em louvor e graça, no banquete do reino de Deus. O sofrimento é a realidade pascal no exemplo de Jesus juntamente com a lembrança de um povo que fora subjugado. Talvez seja essa a intenção de Jesus na ida a Jerusalém: não querer deixar de partilhar com os discípulos nem privá-los de celebrar a identidade do seu povo, porque a defesa de uma identidade acarreta, inevitavelmente, responsabilidades, e a maior de todas é, com toda a certeza, a construção da Paz.

Que a Páscoa seja cada vez mais uma celebração comemorativa, algo que aconteceu há muito, muito tempo, e não realidade de um presente no qual ainda há um povo que espera, ansioso, pela sua libertação.

 

            Margarida Azevedo