domingo, setembro 03, 2017

O PÃO DE ISABEL


 

            Descendo a escadaria do palácio, envergando os seus trajes nobres, carregava o pão no regaço rumo às vielas, travessas e becos perdidos na imúndice da pobreza extrema.

            Libertadora da fome silenciada, a rainha caminhava distribuindo, santa e bela, o alimento divino e puro. Os pobres tornam-se, assim, elemento fundamental de uma oração alicerçada na experiência dura de quem não tem voz; oração qual rota da seda, até ao ritual da produção e confecção do pão rumo a um fim aliviante, feito de alma.

            Com isso, Isabel se purificava também, crescia na sua espiritualidade já elevada, na vivência de um evangelho todo prática, todo esperança, todo oração. Não ia pregar, ia exemplificar, dar testemunho de uma fé que, sem obras, é cega. Não era caridade, mas amor profundo, porque abordar Deus não é palavrear nem rebaixar quem recebe. Naquele pão estava Deus no silêncio das palavras.

A nossa tradição judaico-cristã gira em torno da simbólica do pão, estendendo-se às  funções: alimento do corpo e do espírito; provação e fé; desespero e providência.

Elemento agrário, trabalhado e confeccionado pelas mãos humanas, do chão se eleva ao divino; da terra às mós dos moinhos de água. Era confeccionado com água e sal, com ou sem fermento; o pão é a fusão da Natureza, do homem e de Deus.

O povo hebraico, quando levado para o deserto, conduzido por Moisés, foi alimentado por um maná enviado por Deus, o Pão da Vida. “Eis que vos farei chover pão do céu; sairá o povo e colherá a porção de cada dia, a fim de que eu o ponha à prova para ver se anda ou não na minha lei.” (Ex 16: 4).

Esta afirmação do pão de cada dia reveste-se de uma carga teológica profunda, transportando-nos para a fé de que quem está com Deus nada lhe faltará, terá sempre o necesssário para cada dia. Por outras palavras, o pão não se acomula, não se guarda como um tesouro, ou como o dinheiro no banco para a aquisição de bens. O pão de cada dia é uma presença incondicional e constante, que sacia em qualquer momento aquele que crê firmemente.

Em Mateus 4:1-4, a figura do diabo tenta Jesus, depois do jejum, ordenando-lhe que converta as pedras em pão. Ora, nem só de pão vive o homem, isto é, o pão que é a palavra de Deus não é uma transformação de pedras, resultado de uma tentação.

Durante  quarenta dias de jejum, Jesus alimentou-se da Palavra de Deus. O jejum, tão esquecido pelas igrejas cristãs, devia ser retomado como peça fundamental da fé. Ele recolhe o Espírito sobre si mesmo; promove a reflexão, purifica. Vivemos num mundo onde somos levados a ter uma consciência sobre os que morrem de fome, paradoxalmente querem que esqueçamos os que morrem na opulência, que são mais que os outros, basta debruçarmo-nos sobre as doenças do mundo industrializado.

No Pai Nosso Jesus ensina-nos a pedir o pão de cada dia. Na Última Ceia Jesus parte o pão e reparte-o pelos presentes. Não se trata de um repasto farto. É uma Ceia simbólica. Quantos de nós, sabendo que iríamos ser entregues às autoridades, torturados e mortos, procederíamos de forma idêntica? Aquele Pão é uma despedida que não é definitiva,  ela transcende o corpo físico e asssume-se como vivência toda espiritual. Antecipa o regresso de Jesus em ressurreição, símbolo de vida eterna. O Pão da última Ceia é também o regresso de Jesus às suas raízes campestres: nascceu e foi visitado por pastores e reis magos; vai ser morto e recorda os agricultores, a terra, o renascer.

Amar a Deus na simbólica do deserto e da morte na cruz é difícil. Amar é sempre difícil. Há um dentro e um fora  de nós; entram em conflito sentimentos que se interpenetram. No amor não há fugas. O pão mastiga-se, engole-se, sacia. Mata o que nos mataria, a fome. O Pão da Última Ceia cultua a Fome de encontro definitivo com o Divino, o Amor eterno.

Vivemos o drama da procura do Amor, desde o deserto à cruz; vivemos a emergência da fé nos momentos cruciais, aqueles mais íngremes, mais encrespados. Somos actores de uma dramaturgia não institucionalizada porque o Amor é ligação directa à Cruz, aos excluídos, ao perdão e aceitação da obra dramática que é a vida. Ninguem melhor que uma rainha para representar o papel dessa carga simbólica. Ninguém melhor que Isabel representou esse drama.

A rainha Santa Isabel repartia o pão pelos que viviam no deserto de nada possuírem, na cruz de não serem ninguém. Porém, ao receberem aquele pão, os pobres fazem história e a rainha imortaliza-se como tão cantava Camões: “Aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”.

De Moisés a Jesus, dos pobres a Isabel, rainha Santa, todos são filhos de um mesmo Pai, alimentados da mesma substância porque, em Cristo: “Já não há senhor nem escravo….”

Aquele pão trazia consigo a solidão de uma magestade que, incompreendida, tinha nos pobres os seus maiores aliados.

O pão é uma metáfora. Na nossa fé, tão poética, o pão é Deus, é Vida, é Amor, além de alimento, consolo e memória.

 

Margarida Azevedo

quarta-feira, julho 26, 2017

UM DEUS DE ALIANÇA


 

            Protagonistas de uma vivência da história em que somos confrontados com a nossa natureza densa, paradoxalmente ou não, a mesma torna-se mote para a transcendência na procura incessante do súbtil, do silêncio de uma voz que, poderosa, apela ao lado belo de nós mesmos. Assim se define o nosso viver como uma revelação constante, imparável, rumo a um outro mundo dentro deste mundo.

            Com isso nos identificamos com o Invisível que, mediante os nossos desconfortos de crentes cheios de dúvidas, nos faz reflectir sobre Deus como aquele Ser cujo mundo não pode ser outro senão o nosso; nos eleva à condição do humano como o outro ser que, de tão feito de pó, é simultaneamente tão ar, tão força, tão presença de Deus lembrando que se o filho tráz a marca do pai, logo não seria possível ao humano não transportar a marca do seu Criador.

            As crises da fé não são o descreditar na existência de Deus, antes as nossas zangas, à semelhança de Job que, caído em desgraça, revolta-se contra Deus perante Deus - talvez se assim não fosse estivéssemos a negar a existência do próprio humano. Mas não, estamos em crise aquando do espanto da nossa semelhança com Ele; o desconcerto da Sua presença num mundo tão ignóbil; a existência de uma Aliança com seres como nós. Na nossa finitude, poderíamos afirmar que Deus se enganou ao aliar-se ao humano, que provavelmente teve pressa, que podia ter aguardado que nos purificássemos, previamente, ou pelo menos sermos um pouco bonzinhos.

            Se assim fosse, qual a natureza desses hipotéticos escolhidos? Certamente não seriam tão humanos como nós, e Deus seria o criador para alguns, não para todos; manifestar-se-ia a escolhidos tão subtis que não caberiam nos nossos padrões de humanidade. As organizações cristãs têm-se dedicado a criar dessas superioridades como galináceos, esquecendo-se de que uma igreja não é um aviário, nem os seus dirigentes ou pregadores criadores de gente com pedigree.

            Ora, a Aliança é uma revelação desconcertante. Não pretende diferenciar o humano a partir de qualidades que lhe nâo são próprias; não é uma escolha pela superioridade, o que iria abafar o ideal de humildade e o simples que é ter fé. Pelo contrário, é dentro da insansatez, do comezinho, do banal que Deus se manifesta, porque eles são a nossa natureza, a nossa identidade e porque sem eles não precisaríamos da fé. A Aliança confere sentido, outro sentido, talvez, à nossa existência, reforça a nossa humanidade. Dizemos outro porque não sabemos se o nosso sentido é mesmo nosso, construção existencial da nossa experiência, e ao qual se sobrepõe outro, o divino; ou então se identificam, apenas com momentos peculiares, acções diferenciadas no palco vivencial humano. De qualquer forma, há uma presença que nos aceita como somos, ou então, salvífica, pretende libertar-nos de nós mesmos, em parceria connosco. É que nós somos o outro lado da Aliança

            Em Camões, humanos e deuses confundem-se, trocam de naturezas. A vontade de vencer dos humanos não conhece limites, e os deuses invejam-lhes a natureza por isso. Possuídos por forças sobrenaturais, não mais que humanas e sem limites exaltadas,  enfrentam as forças do Mal com mais coragem e destrezado do que o fazem as forças do Bem. É que o sobrenatural camoniano significa o que escapa à natureza dos deuses, não o que escapa à natureza humana; é o que está fora do comum dos mortais, pertença única daqueles que da morte se libertam.

Mas também é uma demonstração de até onde o poder do sonho conduz o sonhador. Assim, porque os deuses não sonham, senão não eram deuses, espantam-se com a heroicidade dos humanos desmesurada, movida pelo engenho e arte da fé, que também é sonhadora. A ocidental praia lusitana revelou-se-lhes, assim, mostrando ao mundo, mediante o seu exemplo, que a vontade de vencer o medo do desconhecido se sobrepõe a todas as vontades. Descobrem os deuses, mesmo os do Bem, que o humano possui uma coragem, uma força de querer capaz de enfrentar até os feros mares e os seus mostrengos, traça objectivos que persegue com todas a suas forças, nem que para isso faça perigar a sua própria vida, sacrificando-a no altar da coragem sem fim.

            Mas o Deus da Aliança dispensa corajosos para enfrentaar os oceanos. Navegantes da fé, somos a Sua obra promissora, aqueles que não precisam de trocar de identidade com Ele para mostrarem quem verdadeiraamente são. Apenas mudamos de nome sempre que um passo em frente damos na luta contra os nossos monstros internos.

            Somos aliados de Deus na medida em que, com a nossa finitude e apesar dela,  somos capazes de enfrentar todas as vicissitudes. E, tal como em Camões, o Mal é vencido; só que, para este, ele continua lá, rebaixado, na Aliança será para sempre aniquilado, porque o Bem não se compadece com aqueles que o rejeitam.

            Como nos contos de fadas, o Bem não é uma transformação do Mal. O Bem é bem por ele mesmo, é de outra natureza. A fada má, a bruxa má, enfim, serão definitivamente aniquiladas pelas suas congéneres do Bem; o herói sai vitorioso na medida em que lutou sempre, humildemente,  sendo recompensado com a felicidade sem fim.

            É isso a Aliança, a certeza da felicidade sem fim, neste mundo quando o amarmos como a um filho; ou no outro quando ambos se fundirem no mesmo ideal de paz, apesar das suas naturais diferenças. Crentes em Deus, não nos sentimos projectados para o desconhecido. Há quem viva a loucura de uma vida terrena à procura de benefícios no outro mundo, traçado à sua imagem e semaelhança mesquinhas. São os insensatos que nem conseguem perceber que não é com ideologias que Deus estabelece a Sua Aliança, mas com quem está apaixonado pela vida. 

            As nossas crises, que tão banalizadas são, as nossas angústias, o desespero, o sofrimento, numa palavra, são desafios para a fé, são materiais para a construção de um outro tempo, uma realidade que há de vir. Mas há tanto por viver hoje, o dia ainda não acabou, ainda temos tantas coisas a realizar, aqui e agora. A noção de Deus que transportamos é a que espelhamos na história que vamos construindo num presente contínuo.

            A Aliança é a certeza de que há um Ser que vive connosco a tempo inteiro. Deus não é uma presença em part-time. Quanto a nós, basta dizer: “Senhor, habita na minha casa, hoje e sempre!”  Ou, como Francisco de Assis: “Senhor, faz de mim um instrumento da Tua paz…” ou, como diz o salmista: “ Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a Tua benignidade; apaga as minhas transgresssões, segundo a multidão das tuas misericórdias. Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova em mim um espírito recto.” (Sl 51:1; 10) *.

 

            Margarida Azevedo

·         Bíblia consultada, trad. de J. F. de Almeida, 1991.