quinta-feira, novembro 23, 2017

NÃO LER KARDEC ESTÁ A CONDUZIR O MOVIMENTO ESPÍRITA AO DESCALABRO.



”Por outro lado, creiam que se a verdade nem sempre é apreciada pelos indivíduos, ela é-o sempre pelo bom senso das massas, o que também é um critério. (…) repilam impiedosamente todos esses Espíritos que se apresentam como conselheiros exclusivos e pregam a divisão e o isolamento. São quase sempe Espíritos vaidosos e medíocres, que tentam impor-se às pessoas fracas e  crédulas, prodigalizando-lhes louvores exagerados, a fim de os fascinar e manter sob o seu domínio.(…) Por outro lado, tenham presente que quando uma verdade tem que ser revelada à humanidade, ela é, digamos, instantaneamente comunicada em todos os grupos sérios que possuam médiuns sérios, e não a  este ou àquele, por exclusão dos outros. (…) há claramente obsessão quando um médium só recebe comunicações de um determinado Espírito, por mais elevado que este pretenda colocar-se. Assim, todo o médium e todo o grupo que se tenham como privilegiados pelas comunicações que só eles podem receber, e que, por outro lado, estão sujeitos a práticas que tocam a superstição, estão, indubitavelmente, sob o efeito de uma obsessão bem evidente, (…).”(1)

Foram-se os tempos áureos do movimento espírita em Portugal. Instaurou-se um clima de desentendimento e desconfiança, totalmente antagónico às belas palavras das sessões de evangelização. Os clássicos da Doutrina são letra morta. Os tempos agora são outros. São aceites psicografias cheias de erros, tornando inquestionáveis os seus textos, desenvolveu-se um clima de anti-criticismo incompatível com o convite à razão como fundamento da fé, o qual Kardec não se cansou de advertir: “A fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão, face a face, em todas as épocas da humanidade.” (2). Com isto, cresce o número dos que têm medo de falar, os que, à boca pequena, rejeitam o que outros aceitam e tentam impor.

Por outro lado, há uma subversão das leituras de outros autores, para quem as faz, procurando nelas um elo de continuidadade, e mesmo justificação, do que é dito no Espiritismo. Veja-se, por exemplo, a avaliação depreciativa das correntes filosóficas e da Teologia, o desconhecimento total de Exegese e Cristologia, rejeitando tais assuntos simplesmente porque não são de autores espíritas ou porque, o que é pior, nada têm a acrescentar à Doutrina.

Desconhecendo o que seja honestidade intelectual, subvertem conhecimentos fundamentais a qualquer crente, independentemente da sua fé, remetendo-os para o baú das inutilidades. Assim, consideram o Espiritismo auto-suficiente, as demais doutrinas como descabidas e, muito embora a Codificação diga que todos somos médiuns, só é verdadeiro o que acontece no Centro espírita. Nem o próprio Kardec o afirmou. Ao considerar o Espiritismo uma doutrina evolucionista, que se corrigirá onde estiver errada, defendeu humildemente que não estamos sós, quanto ao outro lado da vida, nem deste, entenda-se. Urge perceber que a sujeição de um texto a uma ideologia subverte, o que significa não ler o texto, no sentido de aprender com ele, mas esmagá-lo. Ora, fazer da nossa ideologia a única verdadeira é cair na armadilha do “já me encontrei; esta doutrina diz tudo.” É incompatível com o mundo pluralista de contágios ideológicos. O isolamento doutrinal e exclusivista conduz, inevitavelmente, à cegueira, remetendo o leitor para a mediocridade.

Há quem tenha dificuldade em perceber que: todas as doutrinas são feitas por Espíritos, deste e/ou do outro lado da vida; “ Os Espíritos do Senhor, que são as virtudes dos céus, como um imenso exército que se movimenta, ao receber a ordem de comando, espalham-se por toda a superfície da Terra.”(3). Não são as doutrinas que estão em causa, mas a Terra; o Paganismo foi a base espiritual dessas comunicações e, assim, a Dourina  Espírita tem raízes no Paganismo (importância dada a Sócrates e Platão, por exemplo) tal como o Cristianismo (o Cristianismo das origens debate-se com a articulação entre judeo-cristãos e pagano-cristãos) e o Judaísmo (a Bíblia Hebraica articula sabiamente as práticas pagãs com os ensinamentos da Tora/Lei); os problemas da humanidade não são pagãos, nem cristãos, nem de outra congregação qualquer, mas inerentes à natureza humana.; uma doutrina não se forma a partir do nada, tem que ter uma base sólida, e o Espiritismo não foge à regra (O Espiritismo encontra-se por toda a parte, na antiguidadde, e em todas as épocas da humanidade.”) (4), entende-se a manifestação dos Espíritos (a sua base); a “novidade” do Espiritismo está na  sua codificação, não nos fenómenos que lhe dão o mote para a mesma. Uma vidência será sempre uma vidência, seja qual for a fé do crente; os fenómenos são da humanidade e as doutrinas de grupos em particular. Qualquer médium, espírita ou não, tem na Codificação um códice bastante útil que o ajudará na sua prática mediúnica, mais, na sua vivência de fé… se assim o entender.

Mas outra questão mais incisiva se levanta. A confusão entre o Espírito de Verdade e os que comunicaram com os médiuns da Codificação. Vejamos: “(…) o Espiritismo não tem nacionalidade; está fora de todos os cultos particulares; não é imposto por nenhuma classe social, porque cada  qual pode receber instruções dos seus familiares e amigos  de além-túmulo.” (5), fantástico. Isto é, para lá de tudo o que se possa codificar, há um resíduo, sempre, de particularidades, subtilezas da nossa passagem por esta vida, que não são contempladas mas que são tão importantes como as outras. Por outras palavras, a Doutrina não é uma ditadura, mas, pelo contrário, um códice pleno de tolerância que não encara o não codificável como inaceitável. O individual e o particular têm lugar, voz, marcam presença.

 Por outro lado, se há diferentes categorias de mundos habitados, se o planeta terra está num dos mais elementares, provas e expiações, se não temos acesso aos Espíritos superiores, dada a nossa ignorância e natureza tão densa, então a Doutrina Espírita não é feita por altas potestades, directamente, como, aliás, nenhuma outra doutrina à face da terra. O Espírito de Verdade, essa falange grandiosa, presidiu e preside a toda e qualquer doutrina desde que para isso possua médiuns receptivos à prática do Bem. Se virmos atentamente quem são os Espíritos que comunicaram para a feitura da Codificação, temos, só para lembrar alguns, S. Luís e Sto. Agostinho; rainhas, por exemplo, uma rainha de França; Espíritos protectores, por exemplo, José; a condessa Paula, e tantos outros, basta passar os olhos pelo índice de O Céu e o Inferno (de Allan Kardec). Se fossem de uma elevação muito superior à nossa jamais poderiam comunicar com os médiuns e a própria Doutrina contradizer-se-ia a si mesma. Perceber isto passa por perceber o que é o fenómeno religioso e espiritual. Além disso, tomemos o seguinte exemplo: Uma pessoa desencarna. Porque a Espiritualidade assim o entende, seja qual for a razão, facto que nos escapa, é conduzida a um plano/planeta primitivo a fim de, juntamente com outros trabalhadores, ajudar os seus habitantes no progresso espiritual. Para estes, essa pessoa é considerada como uma Entidade de luz porque, comparativamente, possui algum esclarecimento que eles ainda não têm. Mas ele não é de luz, obedece a uma força superior que supervisiona o grupo. A pessoa que foi daqui pertence apenas a um grau acima, nada mais. Não é por acaso que aprendemos que “Não farás para ti imagem esculpida de nada que se assemelhe ao que existe lá em cima nos céus, ou embaixo na terra, ou nas águas que estão embaixo da terra. Não te prostarás diante desses deuses e não os servirás(…)”. (Bíblia de Jerusalém, Êx 20: 3-5). Ou seja, libertos de ídolos, não caímos na falsidade e na escravização da fé, prostrando-nos perante seres em tudo semelhantes a nós. A fé em Deus não é degradante nem esclavagista nem submissora.

Aprendemos na Bíblia Hebraica que Deus manifesta-se onde, quando e através de quem muito bem entende. Deus não procura os que, do ponto de vista humano, são os melhores. Somos a par e passo confrontados com a ilogicidade dos nossos raciocínios. A liberdade da fé é a antítese da idolatria (os profetas não são ídolos), e os nossos erros não nos vedam a Deus, conduzem-nos a Ele, tal como a doença ao médico (por isso Jesus disse que não são os sãos que precisam de médico - Mt 9:12; Mc 2:17; Lc 5:31). Os Espíritos que presidiram à Codificação, tal todos os que na humanidade se manifestaram ao longo da história, são em tudo iguais a nós. Eles viveram no mundo, são do mundo e compreendem o mundo; vieram dar testemunho de como algumas coisas funcionam do outro lado da vida, mas dentro da sua humanidade, obedecendo a ordens precisas. E nisto consiste a grande riqueza de ser humano: na nossa tão grande ignorância temos momentos em que somos capazes de altruísmo, partilha de experiências e, com isso, evoluir.
Não é de heróis que a espiritualidade se faz, nem adorar a Deus é um acto heróico. A procura de superioridades neste mundo já é, por si só, obsessiva. Temos direito às nossas opiniões, temos direito de seguir o nosso caminho, mas não temos o direito de excluir ninguém simplesmente porque nos faz pensar no que ainda não tínhamos pensado, veste outra roupagem, fala outra línguagem.
Quanto a nós, o Espírito de Verdade não se define. Assim, baseando-nos exclusivamente na Codificação, para os que defendem que é Jesus, o Cristo, dizer que se manifestou directamente aos médiuns é uma anedota; para os que dizem que é uma plêiade superior, a mesma coisa. Para nós, porque a História tal nos ensina, e fazendo jus à tradição, os Espíritos enviados falaram em nome de quem os enviou, tal como na Antiguidade os discípulos falavam/redigiam tomando o nome dos seus mestres. Na feitura da Codificação, alguém falou em nome de Alguém, não o próprio. Isto em nada Lhe retira mérito, pelo contrário, coloca-O no seu devido lugar: muito acima de nós. Grande é a Graça se conseguirmos fazer parte dos servos de Deus, aqui, neste planeta de… alguma humanidade. Kardec é um desafio para todos aqueles que querem humanizar-se na directa medida em que se sentem habitantes do cosmos em expansão, o multiverso incomensurável acima a para além das nossas cabeças. E de expansão permanente Allan Kardec aprendeu e transmitiu: “Há, entretanto, uma coisa que a vossa razão deve indicar: é que Deus, modelo de amor e de caridade, jamais esteve inactivo.” (6) Estude Kardec. Olhe que vale a pena.
 
Margarida Azevedo

 (1)“D´un autre côté, croyez bien que si la vérité n´est pas toujours apprécié pas les individus, elle l´est toujours par le bom sens des massses, et c´est encore là un critérium. (…) Repoussez impitoyablement tous les Esprits qui se donnent comme conseils exclusifs, en prêchan la division et l´isolement. Ce sont presque toujours des Esprits vaniteux et médiocres, qui tendent à s´imposer aux homes faibles et crédules, en leur prodiguant des louanges exagerées, afin de les fasciner et de les tenir sous leur domination. (…) D´un autre côté, croyez bien que lorsqu´une vérité doit être révélée à l´humanité, elle est pour ainsi dire instantanément communiquée dans tous les groupes sérieux qui possèdent de sérieux médiuns, et non pas à tels tels, à l´exclusion des autres. (…) et il y a obsession manifeste lorsqu´un medium n´est apte qu´à recevoir les communications  d´un Esprit special, si haut  que celui-ci  cherche à se placer lui-même. En conséquence, tout médium, tout group qui se croient privilégiés par des communications que seuls ils peuvent recevoir, et qui, d´autre part, sont assugettis à des pratiques  qui frisent la superstition, sont indubitablement sous le coup d´une obsession des mieux caractérisées, (…).”    KARDEC, A., L´Evangile selon le Spiritisme, cap. 21, 10. Les faux prophètes de l´erraticité, pp. 320-321. (1)

 (2)”Il n´y a de foi inébranlable que celle qui peut regarder la raison face à face, à tous les ages de l´humnité.” Idem, p.0

(3)” Les Esprits du Seigneur, qui sont les vertus des cieux, comme una immense armée qui s´ébranle dès qu´elle en areçu le commandement, se répandent sur toute la surface  de la terr;” idem, Préface.
(4)” Le Spiritisme se retrouve partout, dans l´antiquité et à tous les âges de l´humanité, idem,“Introdution, I. But de cet ouvrage, p. 15
(5)“(…) le Spiritisme n´a pas de nationalité; il est en dehors de tous les cultes particuliers; il n´est pas imposé par aucune classe de la société, puisque chacun peut recevoir des instructions de ses parents  et de ses amis d´outre-tombe.”, idem, Introduction, II. Autorité de la doctrine spirite, Contrôle universel de l´enseignement des Esprits,  p. 17.
(6) “Cependant, il est une chose que votre raison doit vous indiquer, c´est que Dieu, type d´amour et de chrité, n´a jamais été inactif.” KARDEC, A., Le Livre des Esprits, Les Editions Philman, Saint-Amand-Montrond, 2002, cap. II, perg. 21, p. 71.
Nota: Tradução do texto em francês por Margarida Azevedo.
 
 
 
 

quinta-feira, outubro 05, 2017

CAUSA PRIMÁRIA OU CAUSA PRIMEIRA




“Qu´est-ce que Dieu?

“Dieu est l´intelligence suprême, cause première de toutes choses.”

Le Livre des Esprits (1) 

       Em qualquer doutrina, o modo como se lêem as primeiras palavras, ou o primeiro versículo é decisivo para a interpretação e, consequentemente, para a vivência da doutrina em estudo.

            Por exemplo, para fazer uma tradução da Bíblia Cristã (NT), terá que munir-se, previamente, dos seguintes materiais: um bom dicionário de grego, um bom dicionário de grego bíblico,  obras de bons comentadores dos livros bíblicos, cada um de per si, obras sobre as temáticas e técnicas  literárias contemporâneas dos textos que vai traduzir, isto é, uma história da literatura clássica, uma história de Roma, muito concretamente do Império Romano, uma história do povo hebraico e do Judaísmo, obras generalistas fazendo uma abordagem sistemática sobre s diáspora judaica e a consequente influência da filosofia grega no pensamento judaico, por exemplo, a importância da retórica para as pregações, a importação de conceitos, isto tudo sem falar de sólidos conhecimentos gramaticais, teológicos e exegéticos. Sem isto, pode-se saber muito bem linguas clássicas, nunca se será um tradutor. Pode-se não ser crente, nem tem por que se ser, mas bem apetrechado de materiais e com objectivos sérios far-se-á, certamente, uma boa tradução.

            O Espiritismo não foge à regra. Se se tiver em atenção que o Espiritismo parte de uma das religiões do Livro, o Cristianismo (as outras são o Judaímo e o Islamismo), facilmente se constata que a linguagem é o mais importante para o bom entendimento da doutrina e dos seus seguidores. Muitos são os que afirmam que as palavras não são importantes, que a nossa linguagem é pobre para definir coisas que não são deste mundo. Ora os textos estão no mundo e são para o mundo. Se não se sabe lê-los, porque o que está escrito aponta para outras realidades, então estamos no bom caminho para a alucinação colectiva. Estamos dependentes de interpretações, leituras que se vão desenvolvendo à medida que os conhecimentos se tornam mais sólidos e as pesquisas científicas mais alargadas. Daí vivermos envolvidos em conceitos e mais conceitos que nos dão muito jeito.

            E é o que se passa assim que se começa a ler o Livro dos Espíritos.  Independentemente das opiniões que circulam nos meios espíritas sobre se Deus é causa primária ou primeira, parece-nos, em nosso entender, que a questão é desconexa, porque não se trata de uma questão linguística mas teológica. Por exemplo, numa corrida ninguém confunde que o primeiro a chegar à meta é o melhor e que antes dele não há nenhum; consequentemente, o que que fica em último é primário face ao primeiro, ainda que tenha muito boas capacidades físicas. 

            Sem querermos entrar em polémicas, que para nós não as há, quer neste quer nos demais temas referentes à Doutrina, basta ler atentamente a resposta à pergunta supramencionada.  A palavra é première e não primaire. Tal como em português primeira e primária são palavras diferentes. Se fossem equivalentes não haveria necessidade de duas palavras, bastaria uma só. Vejamos o que nos dizem os dicionários:

                Premier, ière, adj. Primeiro, o mais antigo de uma ordem cronológica, de uma classe, etc.// Primeiro, o principal, o mais importante.// Primeiro, primário, primitivo.// Le premier venu, o primeiro que chegar ou aparecer.// Fig. La cause première, a causa primária, Deus.// (…) Tout le premier, o primeiro, antes de todos os mais.” (p. 1160). ( A)

                Primaire, adj. Primário, de primeiro grau (a subir). (…) S. m. Deprec. Aquele que tem um horizonte intelectual limitado.” (Idem, p.1167). (A)

                Premier, adj. primeiro, principal; melhor; primário, primitivo; “ (B)

                Primaire, adj. Primário, primitivo. “ (B)

 

            Se tomarmos em consideração que, em Aristóteles, a Filosofia Primeira ou Metafísica é a ciência que estuda as primeiras causas e os primeiros princípios (não os primários), se se perceber que, teologicamente, Deus é a causa de todas as coisas, sem quaisquer qualificativos, se tomarmos em consideração que, para o Judaìsmo, não se pronuncia o nome de Deus YHVH, o Tetragrama, cuja leitura se perdeu, sendo substituído pela palavra Adonai, e ao qual está intimamente ligada a noção de existência e libertação (da escravidão do Egipto), dizer que Deus é uma causa primária é não alcançar, minimamente, a abrangência da temática em questão.

            Ainda que o dicionário de língua diga primária, não o dirá jamais o de teologia. Além disso, o dicionário de língua afirma, peremptoriamente, que primário é o de primeiro grau a subir, ou seja, não é o primeiro de grau superior. Por outras palavras, temos o primeiro de grau superior, o que ganhou a corrida, e temos o primeiro ou primário, aquele que é o mais elementar e que está no lugar derradeiro. Daí instalar-se a confusão. Assim sendo, vejamos o que diz um dicionário de teologia sobre o que é Deus:

                Deus. Puro espírito, eterno, imutável, perfeito e todo-poderoso, fonte de todos os seres e de todas as coisas.(…) Deus não é mundano. O universo material é-lhe estranho, mas ele é a sua causa. O universo do tempo e do espaço não lhe dizem respeito, mas ele é o seu criador. De facto, é quando colocamos a nós próprios as questões fundamentais (porquê algo em vez de nada?, porquê a duraçao da vida?, porquê o fim da vida?) que aparece a eventualidade da existência de Deus. Como fundamento, como explicação, como mistério, ou melhor, como veste do mistério, como palavra cobrindo o mistério, como ser justificando o mistério. (…) se Deus existe, é a  fonte, o meio e o fim. Está na terra mais pela vida dos crentes do que pela palavra que dele se possa dizer. (…)” (C)

                O Deus verdadeiro. Naturalmente, Deus é verdadeiro, infinito, omnipresente, todo-poderoso,  eterno, e por isso mesmo os panteístas identificaram-no com o todo do Universo e os politeítas multiplicaram-lhe os rostos. Mas, para a maioria, ele é, também e antes de mais, alguém dotado  de pessoalidade,que se exprime fora e dentro do homem muito para além das simples manifestações exteriores do mundo, que cria com cada um de nós uma relação toda ela de intimidade e de convicção (…)”  (C)

            Ao ler atentamente esta explicação, jamais uma definição, porque definir significa delimitar, indicar o verdadeiro sentido, a significação precisa de, retratar (alguém ou a si mesmo) pelos caracteres distintos (…) (D), e Deus não é passível de tal, verificamos que a Deus não são atribuídos qualificativos do tipo bom, primeiro, primário, mas sim atributos. Por exemplo, dizer que Deus é verdadeiro não é uma oposição ao vocábulo mentiroso, mas sim que não contém impureza, mescla, mistura. Na resposta à pergunta n.º 3 do Livro dos Espíritos:

                “Pourrait-on dire que Dieu c´est l´infini?

                Définition incomplète. Pauvreté de la langue des hommes qui est insuffissante pour définir les choses qui sont au-dessus de leur intelligence.” (2)

 

não é dito que Deus não se define, mas que a linguagem dos homens é pobre para o definir. Isto deixa entender que, se a linguagm fosse rica esta defini-lo-ia. Ora Deus definido não é Deus porque simplesmente não se trata de pobreza ou riqueza da linguagem. A questão ou o acento tónico não está nas palavras, mas na própria natureza de Deus que, ela sim, escapa a toda a linguagem. Deus é um não-dito, não é aprisionável em vocábulos, conceitos, formulações/fórmulas linguísticas. Caso contrário, seria abordável pela ciência.

Em suma, o que é Deus? A respostta encontra-se no versículo mais lido de toda a Bíblia Hebraica, e que tem múltiplas traduções: “Eu sou o que sou.”, Ex 3:14.

 

         Margarida Azevedo

 

Tradução

(1)     1. O que é Deus?

Deus é a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas.”

(2)     “3.Poder-se-á dizer que Deus é o infinito?

Definição incompleta. Pobreza da linguagem dos homens que é insuficiente paa definir as coisas que estão acima da sua inteligência.”  (Trad. Margarida Azevedo)

Bibliografia

                Obra espírita

KARDEC, A., Le Livre des Esprits, Les editions Philman, Saint-Armand-Montrond, 2002, pp.1.

                Obra não espírita consultada

ARMSTRONG, Karen, Uma História de Deus, Temas e Debates, Lisboa, 1999, No Princípio, pp.25-62.

 

                Dicionários citados

A.       AZEVEDO, Domingos de, Grande Dicionário Francês/Português, Editora de Livros, Lda., Lisboa, 1992, 4.º vol.

B.      CARVALHO, Olívio de, Dicionário de Francês-Português, Porto editora, Lda., Porto, 1980.

C.      COMTE, Fernando, Dicionário Temático Larousse, civilização Cristã, Círculo de Leitores, Rio de Mouro, 2000.

D.      FRANCO, F.M.de M, VILLAR, M. de S., ALMEIDA, J.A.A., CASTELEIRO, J.M., Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia – Portugal, Círculo de Leitores, Lisboa, 1003, tomo III.

 

Dicionários consultados

ROBERT, Paul, Le Petit Robert, Dictionnaire de la Langue Française, 107, avenue Parmentier, 75011, Paris, 1990.

Dictionnaire actuel de la langue française, Flammarion, Paris, 1991.

PEREIRA, Isidro, S.J., Dicionário Grego-Português e Português-Grego, Livraria A.I., Braga, 1998.

 

Bíblia citada

Bíblia Sagrada, trad., ALMEIDA, J.F., Sociedade Bíblica, Lisboa, 1979.

Bíblias consultadas

Bíblia de Jerusalém, Paulus, São Paulo, 2002.

Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, Edição Brasileira, 1967.

Bíblia Sagrada, Verbo, Lisboa, 1976.

La Bible, Traduction oecuménique TOB, Bibli´o - Société Biblique Française, Les Éditions du Cerf, Paris, 2010.

 

Sites:

Wikipédia – Metafísica (Aristóteles)

Portaldaphilosophia.blogspot.com.