sábado, março 29, 2025

O EXORCISMO


As fórmulas de exorcismo têm alguma eficácia contra os maus Espíritos?

Não; quando esses espíritos vêem alguém levá-las a sério, eles riem e persistem.*


 

            Tal como para o tema do umbral, assim também para o do exorcismo. Não pretendo desenvolver uma teoria que seja aceite por todos. Não há esse pretensiosismo. Apenas, dentro dos infinitamente parcos conhecimentos, face à magnitude da diversidade de modos de apresentação das relações do mundo invisível com a vida material, e após décadas de observação de trabalhos mediúnicos, dentro e fora do Espiritismo, décadas que representam fugazes momentos, e nada mais, cheguei à conclusão de que era o momento de partilhar uma breve reflexão sobre essas mesmas observações. Como é óbvio, não cabe em umas escassas páginas o muito que haveria para dizer. Limitar-me-ei ao elementar. Assim sendo, vamos fazer incidir a nossa reflexão sobre as comunicações mais desajustadas, aquelas que causam grandes perturbações, chegando mesmo a desenvolver quadros de patologia psiquiátrica, e não só, mas também doenças do foro cardíaco, por exemplo.

Posto isto, pretende-se esclarecer dúvidas, dentro da medida do possível, e desmistificar, objectivando, principalmente, a perigosa crendice e facultar os meios necessários para a liberdade de fé quando, muito nobremente, esta é chamada à ajuda ao próximo através da mediunidade. Porém, não haja ilusões, ficar-nos-emos pelos aspectos elementares.

            Como ponto de partida, há que ter em consideração dois aspectos fundamentais: todo o ser humanos é médium, por outro lado, não leve a sério tudo o que viu no cinema. É caso para dizer: Deixemo-nos de filmes, e enfrentemos a realidade. É também fundamental partir do pressuposto de que os nossos conhecimentos, as nossas doutrinas, tudo o que muito se escreve sobre esta matéria, estão muito aquém da verdadeira realidade dos factos, quando com eles nos confrontamos. E porquê? É simples. Há alguém que consiga dominar todas as ciências, conhecer todos os complexos aspectos da mente humana, saber tudo o que se passa na Terra? Não é apenas o vasto mundo invisível ao nosso redor que nos escapa. O mundo visível, ele próprio, é cheio de esconderijos, o nosso ver é limitado, a nossa concentração num ponto é extremamente pequena; os nossos desejos profundos, a nossa vontade de que a vida seja diferente, a crença de que uma força mova os cordelinhos e, num golpe de mágica, tudo se transforme, conduzem-nos, quantas vezes, a um estado de alucinação.

            Isto significa que somos seres de filtros: pedagógico-educacionais, sociológicos, políticos, antropológicos, religiosos… As nossas ideologias espartilham-nos, dão-nos a ilusão de que temos, não só a resposta para tudo, mas a única realmente válida; cremos que nos encontrámos, vivendo a felicidade da exclusão. Envoltos pelo conceito de pertença, temerosos do diferente, do outro, do alheio, de tudo o que seja qualificado como não nosso é visto com relutância. Assim nasce a diabolização do diferente que, nos tempos que correm, mediante a leitura distorcida do passado histórico, cria a vitimização cínica, manipuladora quão perigosa, cujo objectivo é desmembrar o progresso civilizacional travando o crescimento do mesmo. Para a espiritualidade, isso é desastroso.

            Tal se verifica através do medo: medo dos contágios culturais, porém, aquilo a que mais estamos expostos. Até porque, na impossibilidade de lhes escaparmos, eles impõem-se com a mais objectiva naturalidade como fonte de crescimento social. Urge, por isso, que o diferente passe a ser visto fora do diabólico, isto é, como uma outra forma de encarar uma mesma realidade que é a nossa vivência terrena. Só assim, se porá fim a falsos exorcismos, e a problemas cuja raiz se atribui ao mundo invisível mas que, verdadeiramente, pouco ou nada tem a ver com ele.

Neste sentido, podemos já adiantar que muitos dos exorcismos, numa acepção clássica do mesmo, são falsos. Apenas o que acontece mais não é que um acto de repulsa da influência externa, ou, o que é pior, uma purga do livre pensamento dentro de uma mesma organização religiosa. O resultado é o excluído entrar em contradição consigo mesmo e tomar atitudes de revolta, chegando, nos casos mais extremos, a tentar o suicídio.

            Quem nunca ouviu falar das heresias dentro da Igreja Católica? Quem eram os hereges? Os que reflectiam, que ousavam pensar de forma diferente, que não concordavam com determinados objectivos, preceitos, ideias, enfim. Esses eram diabólicos, seres possuídos, maus agouros ao serviço das forças maléficas.

            Mas isso não é apanágio apenas da Igreja Católica, nem da Idade Média. Os tempos medievos não terminaram. Os marcos científicos, as revoluções e alterações sociais não põem fim a mentalidades. O saudosismo, e com ele a ideia de um passado de ouro, torna cíclica a mentalidade humana. Perdura até aos nossos dias, nas mais diversas organizações religiosas, e, convém dizê-lo, está muito enraizado no Espiritismo, o medo do outro. Podemos dizer com toda a razão que, com tantas práticas de exorcismo no mundo, há um problema que ninguém ainda foi capaz de exorcizar, a saber, o da irradicação definitiva da desconfiança, da maledicência, e, não poderia faltar, o da inveja. Tudo isso constitui a maior das portas abertas às más influências espirituais. Mas vamos ao que interessa.

            Aquilo a que se convencionou chamar exorcismo mais não é que uma prática transversal a todas as culturas, no sentido de afastar as más influências do mundo invisível. Consiste num conjunto de rituais, mais ou menos complexos, para agradar aos deuses, quer na pessoa de Espíritos de entes falecidos, quer na de Entidades possuidoras de poderes sobrenaturais, com fim a assegurar protecção contra os maus pendores da vida. No entanto, qual o verdadeiro significado de exorcismo e como começou?

            A palavra exorcismo vem do grego exorkismós (εξορκισμός), que significa o acto de fazer jurar; religiosamente, tomou o significado de acto de expulsão de Espíritos malignos, ou demónios de pessoas que estão possuídas. Porém, esses demónios, (do grego daimon - δαίμων; plural daímones - δαίμονες), na Grécia Antiga, tinham uma conotação muito abrangente, um autêntico mosaico, tal como: espíritos ou divindades menores; seres espirituais intermediários entre os deuses e os humanos; seres tanto bons como maus; quer para a filosofia, quer para a mitologia, eram forças inspiradoras; uma força interior; almas dos homens; sabedoria. Quem nunca ouviu falar do daimon de Sócrates, cuja função era justificar o seu discurso, opondo-o veementemente ao dos seus interlocutores, os sofistas? **

            Historicamente, a prática de expulsar as más influências espirituais remonta ao Antigo Egipto, de onde nos vem a informação mais antiga, e à Mesopotâmia, que, no primeiro milénio a.C., fazia exorcismos por meio do uso de amuletos e através de rituais complexos; era aos magos que competia essa tarefa que, supostamente, causavam doenças e punham a vida num estado caótico.

            No Judaísmo, o Professor Yoel Benhabib esclarece, fornecendo-nos as seguintes informações (2):

 

            A possessão, em hebraico, diz-se ibur, isto é, temos uma alma dentro do corpo, e vem uma outra habitar o mesmo corpo, tal como uma mulher grávida tem um outro corpo dentro de si. O processo de separação chama-se guerus ou gueruchim, prática que vem desde a Antiguidade.

            No mundo judaico não existe o conceito de demónios, nem de satanás, isto é, entidades ou uma entidade oposta a Deus. O que existe, no mundo judaico, são espíritos, ou seres espirituais: nós somos seres espirituais, assim como os anjos, tal como qualquer forma não corpórea é também um ser espiritual. Na Bíblia, designa-se uruguay, que significa vento ou espírito.

            Os demónios fazem parte da época medieval do Cristianismo, antes disso não existiam. Nos evangelhos, Jesus fala de espíritos. O daimon vem do grego, e significa espírito.

            Para o Judaísmo, os espíritos são bons ou maus, consoante a função que exercem, isto é, as funções que Deus lhes dá. Nós dizemos que é um mal que ele me faz, mas isso é na perspectiva humana, não na do Criador. “ E o Professor diz, peremptoriamente, “Nenhum espírito entra no corpo de uma pessoa sem que Deus lhe tenha dado autorização. “ E Yoel continua.

            “Pergunta-se ao espírito: Como te chamas? Porque entraste aqui? Quem te deu autorização?

Quanto ao porquê:

1.Há almas que vagueiam; não encontram paz; estão muito ligadas ao mundo físico, à Terra, às coisas mundanas; pensam como quando estavam vivas; querem influenciar os seres humanos; entram numa pessoa que lhes deu guarida, ou através de algo que a pessoa tenha feito.

2.Há espíritos atormentados como castigo, por certos anjos, que vagueiam para encontrar um refúgio, um esconderijo, sentindo com isso um alívio.

Aí, chama-se um rabino ou um cabalista (exorcista não é um conceito judaico),

especializados nestes assuntos (pois que a pessoa pode morrer). O tratamento pode acontecer em poucos minutos, horas, um dia, semanas, meses, anos, porque o espírito pode voltar.

Este fenómeno existe em todas as culturas. No mundo judaico, são as almas das

pessoas que viveram na Terra, e que entraram no corpo de homens, mulheres, jovens e crianças.

Nem todos os espíritos que entram numa pessoa têm que ser maus ou negativos. Há espíritos que vêm a uma pessoa para dar uma mensagem de bem. Na tradição mística judaica há um ensino muito secreto (este tema é secreto, dentro do Judaísmo) que fala de casos de espíritos de sábios que entraram no corpo de um homem/mulher para ensinar, mas sempre para rectificar, fazendo um bem. São espíritos que entram no corpo de um médium para fazer caridade. Isto é muito semelhante às tradições espíritas de Allan Kardec.

Os espíritos podem nem sempre ser maus ou negativos. Podem vir dar uma mensagem, informativa ou de ensino, sempre designados por Deus. Vêem em missão, e nestes casos não há exorcismo.”  

Com o Cristianismo, o exorcismo era uma forma de consolidar a fé cristã, no sentido de que tudo o que não é cristão é mau, objectivado principalmente no Paganismo. No séc. IV é praticado antes dos batismos, o pequeno exorcismo, o qual consiste em “uma oração de libertação usada pela Igreja para afastar a influência do mal e preparar a alma para receber a graça divina.” (1); era também utilizado como bênção de objectos e lugares. É realizado por sacerdotes ou leigos, devidamente autorizados.

Opõe-se ao grande exorcismo, mais complexo e mais intenso que o anterior, composto por rituais e orações específicos (algumas em latim), incindindo sobre quem já está possuído. É praticado por um sacerdote devidamente autorizado, geralmente por um bispo, (exclui situações do foro neurológico). No séc. XII, com a ascensão de seitas heréticas, dentro do Cristianismo, a prática sofre uma alteração, passando a ser a libertação dos cristãos dessas novas crenças.

            Nos grupos evangélicos, em Portugal, não é uma prática comum. Pode acontecer que alguns desses grupos procedam a rituais de libertação espiritual, com alguma semelhança ao exorcismo, mas pouco formalizados e bem mais simples que os da Igreja Católica. Essas práticas são diferentes de grupo para grupo.

            No Espiritismo, não há exorcismos, há desobsessão. Não há rituais, defumadouros, amuletos, fórmulas, palavras poderosas. As fórmulas, os amuletos, e todo o tipo de materiais que são usados para afastar os maus Espíritos, por exemplo, os defumadouros, não têm uma acção definitiva. As doutrinas, as rezas supersticiosas, os ritos, nem são para Deus, nem para as Entidades. São para os crentes. Trata-se de alavancas para as suas crenças, elementos de que estão dependentes para os seus actos de fé.

            As Entidades Mentoras dos grupos de trabalho, em quaisquer grupos religiosos, “aceitam” algumas dessas fórmulas, ou produtos, ritos mais ou menos complexos, na medida em que, ao descerem aos nossos grupos de trabalho, adaptam-se aos crentes, com os seus modos de fé. Até porque, dito em abono da verdade, são elas que trabalham em nome de Deus, utilizando o material humano que têm ao seu dispor.

Se os Mentores dependessem desses materiais, trabalhariam apenas com um grupo de trabalho, ou dentro de uma só religião ou igreja. Ora, não é isso que acontece. Não há Entidades Mentoras ao serviço de ninguém, nem de nenhum grupo específico. É a seriedade dos grupos de trabalho, o desejo profundo de ajudar o próximo, a humildade dos seus elementos que as atrai. Os Mentores, plasmando-se com o aspecto e o discurso que o grupo de trabalho entende, identificam-se com o coração e a fé dos seus elementos. Isto significa que também não há um léxico formal específico, não há um idioma divino, uma palavra-chave para um efeito especial. O que é transversal aos grupos de trabalho, independentemente da cor religiosa, é sempre a seriedade com que trabalha e o respeito para com Deus.

            Do lado das Entidades obsessoras, mostrar um crucifixo com um Jesus crucificado, obrigá-la a dizer que é o diabo, pode ser motivo de riso e troça, bem como dar azo a que se torne ainda mais agressiva. A primeira razão tem a ver com o facto de a Entidade em causa nem ter sido cristã quando estava na Terra (o que é muito comum); a função de um crucifixo, com ou sem Jesus crucificado, também não deve ser a de assustar nem de afugentar, mas a de aproximar e acalmar (é o que parece). Isto significa também, que os símbolos religiosos, sejam eles quais forem, deviam deixar de ser utilizados como amuletos, e passarem a ser utilizados como instrumentos que lembram episódios de fé, seres da devoção dos crentes, entre outras particularidades da fé.

            Dito de outro modo, face aos símbolos religiosos, e demos o exemplo de um crucifixo como poderíamos dar o de um japa mala ou de um arco e flecha, e face aos grupos religiosos, pequenos ou grandes, não há privilegiados; também não há uma época de ouro, em que supostamente surgiram na Terra seres mais iluminados; não há raças, etnias, culturas, usos e costumes, superiores ou desprovidos de protecção divina. Em todas as épocas, em todas culturas, em todas as raças se manifestaram Seres de grande espiritualidade, que vieram trazer grandes máximas. Porém, em jeito de nota de pé-de-página, esses Seres mais evoluídos do que nós manifestam-se com um discurso sempre adaptado às épocas, isto é, ao entendimento dos crentes, ao seu nível civilizacional. Por exemplo, se um Mentor sugerir a um crente que use determinado objecto aquando do seu momento de oração, não é para lhe agradar, mas porque tão simplesmente, ele, o Mentor, percebe que aquele que ora precisa desse apoio. Um outro crente, até do mesmo grupo religioso, pode fazer as suas orações sem necessidade desse suporte, ainda que ambos possam ter o mesmo Mentor.

            Vejamos outro aspecto, o mais importante. Alguns rituais afugentam as Entidades obsessoras. Ora, uma Entidade afugentada não é uma Entidade afastada definitivamente. O afugentado, que afirmou, porque a isso foi obrigado, que é o diabo, não raro aprende a perturbar a pessoa sem lhe causar males físicos, directamente. Pode, como uma tortura, ir minando a vida da pessoa, tornando-a fantasmática, vingando-se da forma agressiva como foi abordada. Muitas Entidades que passaram pelos chamados exorcismos aparecem nos Centros Espíritas através dos mesmos médiuns, isto é, por aqueles que foram submetidos ao exorcismo, revoltadas e perigosamente agressivas, denunciando aquilo a que chamam maus tratos. Nesta situação, temos também as que vêm dos chamados virtuosos, que, sem escrúpulos, as aprisionam em suas casas.  

            E aqui surge uma situação que a maioria das pessoas desconhece: as Entidades perturbadoras, não raro, estão presas à Terra pelos Espíritos encarnados, isto é, por nós. Os nossos pensamentos têm mais força do que supomos. Há Entidades mais fracas, nesse sentido, do que nós. As evocações, geralmente de Seres em que as pessoas depositam fé e supõem que têm uma espiritualidade avançada, são, a maior parte das vezes, Espíritos inferiores, que entram em perturbação por meio dessas mesmas evocações. Temos neste capítulo os falsos santos, as falsas Entidades de luz, os falsos anjos da guarda. São as pessoas que, na sua crendice evocam Espíritos, sem terem a noção da perigosidade a que se expõem. Por isso, em Espiritismo, é expressamente proibida a evocação. As Entidades surgem, quando surgem, trazidas pelos Mentores, e pelos médiuns perturbados, mas sempre obedecendo à vontade de Deus. Quanto a nós, os nossos pensamentos e comportamentos, quer familiares, quer sociais, o modo como vivemos a espiritualidade, definem o tipo de companhias espirituais que temos connosco. Por isso, há que estar vigilante.

            A oração, não técnica nem mecânica, mas dita com o coração, consegue maravilhas. Porém, há quem não consiga orar por palavras espontâneas. Nesse caso, um Pai Nosso, a oração que o Senhor nos ensinou, ou a leitura de um Salmo, pronunciados com o coração e fé fervorosa, agradam aos bons Espíritos nossos Mentores.

Por isso, o trabalho de desobsessão exerce-se, sempre, em duas frentes: para com o médium perturbado e para com a Entidade perturbadora. Primeiro, há que captar a Entidade para um médium de incorporação, a fim de a doutrinar; em segundo, tratar o médium através de um passe de limpeza psico-magnética, com o mesmo objectivo.

Entenda-se que esse médium, mesmo uma vez libertado, não deixa de ser médium. Se não for esclarecido, na sua fé em Deus, (sempre em Deus, porque nada acontece sem a Sua permissão, e sem que Ele o queira), ele continuará a ser porta aberta às negatividades, sendo ele próprio o motivo das suas obsessões. Quanto à Entidade, o trabalho torna-se mais complexo. Há Entidades que aceitam deixar a Terra mais facilmente, e seguem o seu caminho; outras há que são mais renitentes. Estas podem levar muito tempo até seguirem para o plano espiritual que as espera. Conheci um caso em que a Entidade levou três anos até se afastar definitivamente do médium que perturbava. Há casos em que a Entidade persegue o médium quase uma vida inteira, muito embora já sem força para o perturbar, acabando por se afastar pela saturação.

(cont.)

 

Margarida Azevedo

 

 

 

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*KARDEC, A., Le Livre des Esprits, Les Editions de Philman, Saint-Amand-Montrond, 2002, perg. 477, p.185. Trad. M. Azevedo.

**wikipedia

(1)    https://catolicus.eu>pt>

(2)    Google Chrome, vídeo: Professor Yoel Benhabib,  La Posesíón Demoníaca y el Exorcismo en el Judaísmo.

Nota: Transmiti as ideias, com algumas expressões do autor, não o texto ipsis verbis.

 

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, dezembro 24, 2024

NATAL 2024


 

            Desejo a todos os irmãos e irmãs um santo Natal. Que seja a festa da fé, a alegria de quem, por meio de Jesus, chama ao Deus Altíssimo “Pai”. Este Messias prometido, salvador do mundo, o Emanuel (Deus connosco) que sedimenta a Aliança de Deus com o seu povo é uma presença que nos chama à responsabilidade de sermos seus seguidores. Não basta acreditar em Jesus como o messias, é imperioso imitá-lo na sua simplicidade, na humildade da manjedoura, na valoração da família.

            Cada um de nós pode ser Jesus quando bate à porta de um necessitado adivinhando-lhe aquilo de que precisa; quando acredita, e por isso luta, pela paz em todos os lugares da terra; quando enaltece aqueles que se entregam ao bem-fazer, no silêncio a que estes são naturalmente votados; quando tem a coragem de ser diferente impondo-se contra o vulgo na sua verdade construída e perigosa.

            Mas somos Jesus ainda mais quando entramos na dinâmica do protesto: contra a desumanidade, contra um humano muito humano circunscrito às coisas muito grandes, famosas, ou a outra coisa qualquer muito vistosa. Há uma outra humanidade, a de Deus, de que Jesus é o grande testemunho. É a humanidade do relativo, do pequeno, do vulnerável. Com Jesus, o pequeno torna-se grande, os relativos espaços onde nos movemos tornam-se caminho, e a fraqueza torna-se força. Acaba a circunscrição à nossa visão das coisas grandes. O Natal é a abertura a uma nova perspectiva: somos de Deus na medida em que partilhamos as nossas experiências, que conseguimos dizê-las por meio de palavras que são sempre novas, de frases não feitas, sem slogans.

            Ser-se cristão é assumir uma humanidade que é terra e carne através do ar que nos é insuflado pelas narinas. Se quisermos, podemos ser tudo o que Deus quer, porque a vontade de bem-querer já não é apenas a felicidade passageira deste mundo, mas a força da fé de que outras realidades mais elevadas existem e estão ao nosso alcance.

            O mundo precisa de vozes que, em uníssono, se imponham pela paz, pela esperança e pela bondade. Que este Natal seja um ponto de viragem nas nossas vidas, um grande momento de humanidade.

 

            Margarida Azevedo