sábado, abril 29, 2023

O PERDÃO DE JESUS II

 



            O psicologismo calculista do sofrimento como mola evolutiva é revelador de que há um aperto na alma, na fé e na racionalidade, enfim, por dificuldade em aceitar que é tão difícil explicar o sofrimento como o perdão. A maior parte das vezes desculpamos em vez de perdoar, o que já não é mau, tudo depende da intenção com que o fazemos. Por exemplo, em espiritismo, desculpam-se os actos do outro por pena, porque ainda vive na ignorância, pobrezinho/a, quanto às suas raízes, os tais fundamentos perdidos na noite dos tempos e que ninguém sabe, mas que os espíritas sabem.

            Com isto se tem desenvolvido a desculpa da desculpa: desculpei-o/a porque é um/uma ignorante do passado. Ora isso não é perdão, mas o seu oposto. Tolentino Mendonça lembra: “O perdão não é desculpar. A desculpa é uma coisa, o perdão outra. A desculpa é uma coisa racional; é olharmos para uma pessoa que nos ofendeu e tentar compreender as razões e as condicionantes que ela tinha…(teve problemas graves na infância, não lhe foram dadas possibilidades que outros tiveram, sofre o abandono e falta de um contexto estável e protetor…). Isto é uma desculpa. É a procura racional das razões que, certa maneira, podem iluminar o ato de ofensa. Mas ainda não é o perdão.” (1)

Ele/ela sofre porque ignora totalmente que é o/a construtor/a do seu viver. De facto, somos nós os construtores do nosso percurso, mas com as características do humano e muito humano. Tudo o que nos acontece não poderia ser de outro modo porque somos como somos, porque é esta a nossa natureza, é este o nosso nível evolutivo, quer biológico quer espiritual. Temos que conseguir, se quisermos passar a um patamar superior, ultrapassar a desculpa, laica, pagã, ateia, e lutar por conseguir alcançar o perdão, a que só uma fé emancipada e livre pode subir. É aí que se situa o perdão de Jesus. Os perdoados não são escolhidos, mas são eles que se escolhem mediante uma fé inabalável em Deus e na prática do “vai e não tornes a pecar”.

Contrariamente, generalizando o que muitos afirmam, é por falta de conhecimentos do que chamaria arqueologia espiritual que o mundo está como está. Esquecem-se que se hoje somos de um país amanhã seremos de outro, se somos de uma cultura numa vida seremos de outra noutra, raça, etnia, língua, gostos, tendências, aptidões, etc. Isto é, uma pessoa pode encarnar em um país com leis, práticas sociais e culturais que nada têm a ver com aquele/s em que viveu anteriormente. Até podem ser totalmente incompatíveis com a sua ancestralidade, apenas é uma nova vida que vai começar. Por outro lado, mesmo que reencarne onde já viveu, isso não significa que se identifique com esse lugar, em todos os aspectos ou parcialmente. Esse lugar pode ter mudado de tal forma que já nada, ou muito pouco, será o mesmo. Há uma explicação, tem que haver, para os nossos passos na vida, só que nós não sabemos qual, e isso é uma graça divina, eu diria mesmo uma forma de seguir em frente sem pesadelos, sem sobressaltos, sem passagens bruscas e inconsequentes. Conhecer o passado seria viver artificialmente. Uma Entidade responde claramente a Kardec:

“Por que o espírito encarnado perde a lembrança do seu passado?

O homem não pode nem deve saber tudo; Deus assim o quer na sua sabedoria. Sem o véu que lhe oculta certas coisas, o homem ficaria ofuscado, como quem, sem transição, passa da obscuridade para a luz. Pelo esquecimento do passado ele é mais ele mesmo.” (2)

 

             A vida não pode ser encarada como uma perseguição de algo que corre atrás de nós. Isso é uma autêntica obsessão. O que se passou há centenas ou milhares de anos está-nos vedado. Esse natural oculto é o maior perdão de Deus, perdão que caracteriza a vida como um conjunto de possibilidades e de possíveis. Temos possibilidades na medida em que somo dotados de dispositivos e mecanismos que nos permitem sobreviver em condições adversas, físicas e espirituais numa simbiose perfeita. Por exemplo, o Povo Escolhido viveu exilado no Egipto e não perdeu a sua identidade, muito pelo contrário. Havia uma força unificadora e dinamizadora que jamais o deixou cair, apesar das naturais vacilações. Mediante essas possibilidades ofertadas por Deus, torna-se possível evoluir, possível aprender, possível querer ser melhor, possível mudar de vida, possível amar, possível mudar o rumo existencial. Enfim, é possível a esperança no dia de amanhã, nem que seja centenas de anos mais tarde.

Há que empurrar o passado para o esquecimento, caso contrário, viver tornar-se-ia numa luta permanente contra uma forma de maldição, uma acção poderosa de um fantasma voraz todo-poderoso. Se assim fosse, de nada serviria o arrependimento, falar de perdão, de misericórdia, do poder da oração, e cair-se-ia inevitavelmente no fatalismo. As possibilidades e os possíveis perderiam todo o sentido.

            Há quem se queixe de que tem um obsessor desde nascença. É possível. Mas ele só irá até onde Deus o permitir, e até onde vai a nossa fé, a oração, a nossa prática social, o modo como estamos na vida. Um alcoólico ou um mentiroso dificilmente se verão livres do seu obsessor pois que as suas práticas de vida só o atraem. Mudando de vida, o obsessor enfraquece, e o caminho abre-se ao divino. Nada existe maior que Deus.

A maior barreira contra as negatividades será sempre o amor como força poderosa, a única capaz de anular as crenças, tanto em penas eternas como em perseguições ferozes. Até porque a protecção de Deus não faria qualquer sentido, uma vez que há uma condenação de que é impossível escapar, aconteça o que acontecer.

Porém, nós também somos obsessores, e mais vezes do que pensamos. São os juízos de valor, os (pré) conceitos, as ideias feitas, a teimosia em permanecer na inércia e opor-se à mudança evolutiva, o apego aos títulos, o ridículo da ilusão de que tudo pode, tudo e mais alguma coisa, tendo-se por superior… Há até quem viva como se não fosse morrer um dia. Nós somos os nossos perseguidores, obsessores terríveis de nós mesmos, atraindo tudo o que de mais negativo possa existir do plano espiritual. Quantas vezes somos demónios portadores de outros demónios tão selvagens quanto nós?!

            No séc. XIX pretendia-se combater a teoria católica do fogo do inferno, hoje a das penas com data marcada; combatia-se a mediunidade espectáculo de teatro, hoje combate-se o desconhecimento de que a mediunidade pertence a toda a gente; combatia-se a pobreza como mau uso do dinheiro nos tempos de outras vidas, hoje combate-se a pobreza como um problema nosso (como já o disse Jesus), do presente, isto é, não há pobres porque há karma, há pobres porque há egoísmo, cinismo e falsa fé em Deus.

            O determinismo, negro e pessimista, existe nas cabeças de cada um de nós; é característica de quem ainda não sabe amar. O que é o perdão e para quê pedi-lo a Deus? Queremos ser perdoados de quê e para quê? Se o perdão consiste em uma oportunidade dada por Deus para vir à terra pagar os nossos débitos kármicos, confundindo-se com a pena de talião (dito de outro modo: Fizeste-as, hás-de pagá-las), em que o nosso viver estás totalmente pré-determinado, então onde fica a necessidade de melhoria do ser humano e do amor incondicional? A grande possibilidade de voltar à terra é uma graça divina na medida em que se torna possível repor uma ordem na desordem que nós criámos, ordem que é toda amor. Vimos para aprender a amar. Pagar uma dívida não significa purificação, pode significar um alívio para o devedor, mas não elevação espiritual. A grande força ao arrepio do espírito de perseguição é o arrependimento sincero e verdadeiro (Lc17: 3-4)

            (continua)

            Margarida Azevedo

 

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Referências

(1) MENDONÇA, J. T., Pai-Nosso que estais na Terra, Paulinas, Prior Velho, 2014, XI, Uma Decisão Unilateral de Amor, “…ASSIM COMO NÓS PERDOAMOS A QUEM NOS TEM OFENDIDO”,  O que o Perdão não é, p.122.

(2) KARDEC, AL., Le Livre des Esprits, Les Éditions Philman, Saint-Amand-Montrond, 2002, cap. VII, Retour à la vie corporelle, Oubli du passé, perg. 392, p, 151. Trad. M. Azevedo.

(1)   Ver pergunta n.º459.

terça-feira, abril 25, 2023

O PERDÃO DE JESUS



 

“E perdoa-nos as nossas dívidas,

tal como nós perdoamos aos nossos devedores;

e não nos leves para sermos postos à prova,

mas livra-nos do iníquo.” (1) (Mt 6: 13-15)

              “E Jesus, vendo a fé deles, diz ao paralítico: ’Filho, os teus pecados estão perdoados’.” (2)

(Mc 2: 5)

“Nem eu te condeno. Vai. A partir de agora não voltes nunca mais a errar.” (1) (Jo 8:11)

 

            Os espiritas vivem demasiado ocupados com a fé raciocinada. Tudo tem uma explicação, científica, já se vê, e só ela tem o domínio do conhecimento de tudo quanto nos acontece. Sofrer, significa, portanto, ignorar a culpa, desconhecer por completo a raiz de todas as coisas. Quando esta é revelada pela razão, tudo fica mais fácil. Se descobrirmos, por exemplo, que fomos nós quem escolheu a tortuosidade do nosso próprio caminho, então mais fácil ainda, porque não temos de que nos queixar. Dito de outro modo, explicar significa anular, ou pelo menos aliviar consideravelmente o sofrimento. Será?

            Diz-se habitualmente que nada acontece por acaso. Mas, como aceitar a culpa de um facto desconhecido? Como justificar que o presente é totalmente o rosto desse passado mais ou menos remoto? Pode ser verdade, mas também pode não o ser. É arriscado generalizar e conferir à razão a responsabilidade da chave-mestra que abre todas as portas da nossa vida. Lembremos que temos três formas de explicar o real: a razão, a fé e o mito. Conseguimos claramente separá-las? Eis o grande dilema.

Lamentavelmente, a frieza e a inconsistência do excesso de racionalidade tem levado a que a fé seja encarada como um pormenor técnico: acreditar significa saber que tudo se enraíza no passado; que fomos nós que escolhemos as nossas próprias provas; que a vida é um processo de limpeza que só o sofrimento consegue realizar; por outras palavras, quanto mais sofrer melhor. Porém, Jesus disse: “ … Vinde até mim, todos vós que estais esgotados e carregados, e eu dar-vos-ei descanso. Levantai o meu jugo para vós e aprendei comigo, pois sou gentil e humilde de coração e encontrareis descanso para as vossas almas. Pois o meu jugo é brando e o meu fardo é leve.” (1) (Mt 11: 28-30) Jesus convida-nos a aprender com ele que é gentil e humilde de coração, se quisermos o descanso para a alma. Dito de outro modo, o bem aprende-se, e o bem é a capacidade de nos aliviarmos dos nossos pesados fardos. Esta explicação pela fé liberta-nos igualmente do Jesus milagreiro e conduz-nos ao Jesus todo amor.

 

No entanto, os espíritas enfatizam este propósito: “Se alguém quer vir atrás de mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.” (3) (Mt 16: 24), numa espécie de viva tudo o que me dá dor de cabeça; viva o cancro, a casa a arder e viver na rua, viva não ter nada, viva estender a mão à caridade, viva a guerra, as torturas e tudo o mais. É que, falar de sofrimento é fácil, cair nos exemplos concretos é que é difícil.

A nossa cruz significa carregar o fardo pesado, mas ainda mais a luta contra nós próprios, contra as nossas vis tendências, a começar pela defesa do sofrimento como processo catártico (gr. κᾰ́θᾰρσῐς, kátharsis). Carregar a cruz é carregar o que nós somos e não conseguimos combater; suportar uma natureza que ainda é deficitária de fé, de conhecimentos, de desapego de nós próprios; a cruz é o medo do outro porque é diferente; a cruz chama-se egoísmo, banalidade, indiferença; a cruz é “quero lá saber!”; é “perdão, nem vê-lo”.

            Ora o cristianismo do sofredor é uma falácia que já não faz sentido nos tempos que correm. Ninguém está interessado em saber de onde vem o sofrimento, mas em combate-lo. Vão longe os tempos do amor e uma cabana para ser feliz. Os conceitos de felicidade e de amor expandiram-se. É de liberdade que o ser humano está ávido, de estabilidade familiar, laboral, social. O ser humano nunca desejou tanto perder o medo de viver como hoje. Temos a sensação que de um momento para o outro algo nos pode cair em cima e esmagar-nos num ápice. É disso que se teme. Já não é a Deus que se teme, o karma, os Espíritos, mas a vida na terra, que se tornou drasticamente complexa. Tudo está periclitante, até o amor, que se tornou fugaz, trágico, incompreendido.

Quanto ao sofrimento é bem visível até onde nos leva: problemas psicológicos, ruptura da fé, ou fé doente baseada na superstição e no castigo divino, um autêntico grilhão em vez de força libertadora; problemas sociais de toda a ordem (são cada vez mais refugiados), miséria monetária e humana, agressividade e violência. É o sofrimento a gerar sofrimento ainda maior, sem se saber como sair dele. As organizações de solidariedade social sentem-se impotentes para dar resposta a tão grandes necessidades e necessitados. A sensibilização para a prática do bem ao próximo está na ordem do dia com o número crescente de voluntários.

Em suma, o planeta é um palco onde se jogam duas forças contrárias: a da destruição em massa de pessoas e bens, e a da construção e defesa da vida. Mercê das novas tecnologias, o planeta está unido, como nunca, na grande luta contra o sofrimento. E não será isso o gesto mais válido, a razão da nossa existência: a luta pela felicidade? Aprendamos com o humilde e brando de coração, e o deus do olho por olho dará lugar ao Deus todo amor e misericórdia.

(continua)

 

Margarida Azevedo

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(1) Trad. F. Lourenço.

(2) Trad. Dimas de Almeida.

(3) Trad. Conferência Episcopal Portuguesa

 

 

 

 

 

 

domingo, abril 09, 2023

PÁSCOA 2023

 

 

Tu não me abandonarás no mundo dos mortos,

não deixarás que o teu fiel experimente a corrupção.* Sl 16:10

 

Feliz daquele que viu a sua culpa levantada

e o seu pecado apagado.

Feliz a quem o SENHOR não acusa de maldade

e que no seu espírito não tem falsidade.* Sl 32:1-2

 

Fizeste-me passar por grandes males e aflições; mas voltarás a dar-me a vida

e dos abismos da terra me erguerás de novo.* Sl 71: 20  

 

              Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, aí o crucificaram. E <crucificaram> também os malfeitores, um à direita e outro à esquerda. Jesus dizia: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem.”** Lc 23: 33-34

 

Quando o sofrimento é desmedido, a única forma de o vencer é perdoá-lo, tal como amar quando tudo parece perdido, por exemplo: aquele amigo que nos traiu, aquela verdade que se revelou mentira, aquele acontecimento que nos isolou injustamente. Perdoar e amar no auge da solidão, do abandono, do tudo está consumado é fazer brotar flores em espinheiros.

São tantas as nossas interrogações. Num mundo em que se tornou tão fácil matar, levantam-se questões existenciais, a saber, onde é que está Deus quando acontece o homicídio de uma criança, de um idoso, de um transeunte que vai descansadamente a passar na rua a olhar para as montras? Onde está Ele quando alguém é barbaramente torturado, quando no auge da vida surge a notícia de um cancro devastador, quando a alegria de um filho é trespassada pela notícia de que este caiu nas malhas da droga ou morreu subitamente num acidente de viação?...

A vida é uma passagem de passagens. Não apenas do bem-estar momentâneo para o inferno de uma desgraça que surge sem mais; ou da liberdade para o cativeiro; não só da Tradição para a sapiência da Lei; não só do espaço pagão para a Terra Prometida. Esta dicotomia faz pouco sentido se atendermos que pisamos solo sagrado, na medida em que tudo foi criado por Deus.

A Páscoa é a festa das passagens: do cativeiro para a liberdade, da morte para a vida eterna. Porém, há uma Páscoa de que pouco se fala: a passagem da insignificância de Jesus para o mundo e para a cultura do seu tempo, para a sua importância universal; da relatividade para a imensidade, do não glorioso para o glorioso. O mesmo é dizer, quantas vezes deturpados pelo olhar inerte vemos insignificância no homem caído à beira da estrada nas nossas cidades e pede esmola, ….., no pastor impuro que apascenta o rebanho que nas nossas cidades varre as ruas e nos garante a dignidade da limpeza, na ressurreição daqueles que trabalham nos hospitais e nos tratam com desvelo. Quanta magia nesta transformação de tudo em possibilidades.

A Páscoa da ressurreição de Jesus é a radical mudança de paradigma: proclamar o amor no meio do ódio, a vida na morte, perspectivar a existência terrena de outra forma. Jesus perdeu tudo, numa perda que se transformou na maior vitória de todos os tempos, caso único na história das religiões.

Hoje, já não estamos a passar do cativeiro para a liberdade, já não é preciso separar as águas nem vencer pragas. É a força de uma nação que se impõe pela certeza de que a vida continua, libertando a fé da natural dúvida que a acompanha. Também já não é uma nação que procura a sua terra, mas o povo de uma nação sai a universalidade metafísica de uma dúvida que é vencida.

Reduzir o imperialismo à sua vã ilusão não é só relativizar o poder do Império Romano, mas um aviso a todos os poderosos da terra de que não há maior ridículo do que aquele que leva a pensar que podemos ou somos alguma coisa.

Que significa o perdão? Ausência, anulação e fim, para culminar numa totalidade: tudo presença, tudo construção, tudo começo, eternos. Não é esquecimento de uma ofensa, mas aprender que aquilo que não se esquece também pode ser um móbil de mudança de um menos para um mais.

A vingança não nos leva à transcendência, Deus não surge aí. O Paraíso mostra o perdão incondicional face a um entendimento metafísico. Só o paraíso purifica, só ele é escola, porque só ele tem a autoridade do Bem. Estamos longe dos mitos repletos de heróis. Estamos no coração da teologia da dor como força transformadora, radical e perfeita.

Quem é o Jesus crucificado? Um pecador. Um terrorista perigoso que incitava o auditório a desconfiar do poder dos poderosos, daqueles que usavam longas vestes, dos que oravam com longas preces em público para serem vistos; que comia a todas as mesas, que curava em dia de sábado, que relativizada e ridicularizava todos os que tinham na terra o seu triunfo, enfim.

O terrorismo não é só quando se mata alguém à porta de um templo ou num espaço de lazer. O terrorismo também é perigosamente visto onde ele não está, por medo e desconfiança, por não se conhecer o outro, por imposição social, por respeito humano, por fobia, por complexos sem sentido.

Este perdão na cruz é também uma democratização da fé. Perdoar porque há um fim, há uma escatologia no perdão. O fim é atingir todo o bem, toda a felicidade, sê-lo, efectivamente, fundir-se com ele.

Cada um de nós é uma voz da Promessa, é uma passagem. Cada um de nós é um ser à procura de luz. Viver é encontrar-se consigo mesmo e com o outro numa casa que é Deus.

Tal como nós, os discípulos duvidavam da ressurreição, não apenas Tomé. Este foi apenas mais explícito, como nós também quando os problemas apertam. Ora Jesus marcou definitivamente a vida dos apóstolos, discípulos e simpatizantes, que somos nós todos.

Cada Páscoa é uma transcendência, o lembrar de que somos caminho, que estamos de passagem, sempre de passagem. A morte já não é uma fatalidade, um castigo divino, um mau pendor. A morte é uma necessidade, a maior necessidade do ser humano, porque sem morte não há vida.

Pergunta-se: Para que mundo queremos ir? Queremos passar de onde para aonde? Nesta Páscoa, eu quero passar para outra dimensão da oração, a saber, quero que Deus não me atenda.

Senhor

Não atendas aos meus pedidos de uma fé ferida nas malhas da dúvida

Não escutes as minhas lamentações quando caio no poço por teimosia

Não estejas perto de mim quando me julgo merecedor/a dos Teus elogios por algum bem remoto que tenha feito

Não fiques comigo à cabeceira quando estou doente pelos meus excessos de toda a ordem

Não Te preocupes comigo quando caio por não seguir as Tuas recomendações

Não me oiças quando a ousadia foi longe demais

Não me dês a Terra Prometida, permite-me antes prometer-Te a terra com paz

Não afastes de mim as águas poderosas, deixa-me ser eu a afastar de mim a ilusão do poder e dos poderosos

Não me leves para as montanhas, mas abre-me o caminho para ser eu a própria montanha

Não me dês a Lei, mas ilumina-me para ser eu um exemplo do dever cumprido

Não me ofereças os Mandamentos, mas que seja eu o/a seu portador/a por todo o universo, por toda a eternidade

Não escondas de mim o mundo dos mortos, mas permite-me lutar para merecer a eternidade dos vivos

Se preciso for, deixa-me construir os bezerros de oiro, festejar os poderes dos deuses, tentar confundir os escolhidos para ter a ousadia de Te pedir o perdão na consciência da ingratidão, na penúria dos sentimentos e das palavras (mal)ditas

A ti, Jesus, preciso que me dês uma definição de verdade:

Que eu não sei o que faço

Que sou culpado/a pela tua crucificação

Que estava lá, que vi tudo e que fugi para bem longe enquanto tu, agoniante, pedias perdão por toda a humanidade

Que que me digas que sou um que blasfemava contra ti ao teu lado, crucificado como tu; ou o outro, suplicando-te que te lembrasses dele quando chegasses ao teu reino, aquele a quem tu disseste que estaria contigo, hoje, no paraíso

Que me digas que tudo está consumado quando disseste que tinhas sede e te dei em vez de água uma esponja embebida em vinagre

Que me assustei quando se rasgou o véu do Templo em dois; quando “a terra tremeu e as rochas fenderam-se. Os sepulcros abriram-se e muitos corpos de santos que tinham adormecido ressuscitaram (…) ” * (Mt 27:51-52) aparecendo na cidade santa a muitos

Que escarneci solicitando artes mágicas dizendo que te salvasses, que és rei, que desças agora da cruz

Que o meu coração de pagão/ã, caído por terra e numa fé completamente renovada pelo espanto da singularidade dos acontecimentos, afirmou, na morte: “Verdadeiramente este era Filho de Deus!”* (Mt 27:54); “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus!”* (Mc 15:39); Realmente, este homem era justo!”* (Lc23:47)

Que esta Páscoa seja a entrada triunfal numa outra dimensão da Palavra que se fez Carne, na “bênção da oração não atendida”.***

Margarida Azevedo

 

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*Trad. Conferência Episcopal Portuguesa.

** Trad. F. Lourenço

***HALÍK, T., O Meu Deus é um Deus Ferido, Paulinas, Prior Velho, 2021, p.131.

quinta-feira, abril 06, 2023

À PROCURA DO SENTIDO DE NÓS MESMOS III

 


Parábola do pai misericordioso

              Disse ainda: “Um homem tinha dois filhos. O mais novo deles disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte dos bens que me toca’. O pai repartiu os bens entre eles. Não muitos dias depois, o filho mais novo, juntando tudo, partiu para uma região distante e aí esbanjou os seus bens, vivendo dissolutamente. Depois de ele gastar tudo, surgiu uma grande fome naquela região, e ele começou a passar privações.

              Uniu-se, então, a um dos cidadãos daquela região, que o mandou para os seus campos guardar porcos. Desejava saciar-se com as bolotas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava.

              Então, caindo em si, disse: ‘Quantos assalariados de meu pai têm pão em abundância e eu aqui morro de fome! Vou levantar-me, ter com meu pai e dizer-lhe: ‘Pai, pequei contra o céu e para contigo; não mais sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus assalariados’. E levantando-se foi ter com o seu pai.

              Ainda ele estava longe, quando o seu pai o viu e se compadeceu profundamente; correndo, então, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou repetidamente. Disse-lhe o filho: ‘ Pai, pequei contra o céu e para contigo; não mais sou digno de ser chamado teu filho’.

              O pai, porém, disse aos seus servos: ‘Trazei depressa a melhor veste e vesti-lha; dai-lhe um anel para a sua mão e sandálias para os pés; trazei o vitelo gordo, matai-o e festejemos comendo, porque o meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado. E começaram a festejar.

Ora, o seu filho mais velho estava no campo. Quando voltou e se aproximou da casa, ouviu músicas e danças, chamou um dos servos e procurou saber o que era aquilo. Ele disse-lhe: ‘ O teu irmão voltou, e o teu pai matou o vitelo gordo, porque o recebeu de volta são e salvo’. Ficou irado e não queria entrar, mas o seu pai saiu para lhe suplicar. Em resposta, disse ao seu pai: ‘ Eis que há tantos anos te sirvo, nunca transgredi uma ordem tua e nunca me deste um cabrito para eu festejar com os meus amigos. Mas, quando veio esse teu filho, que devorou os teus bens com prostitutas, mataste-lhe o vitelo gordo’. Ele disse-lhe: ‘ Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu; mas era necessário festejar e alegrarmo-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado’.” (1)

 

Vejamos primeiro a estrutura da história

1º momento

Personagem principal: O filho mais novo.

Personagem secundária: O pai.

Personagens secundárias anónimas: Assalariados - figurantes -.

Cenário: Uma propriedade rural com criação de gado.

Situação:

O filho mais novo pede ao pai a sua parte dos bens.

O pai reparte-a com os dois.

1ª decisão: O filho mais novo sai da casa do pai e vai para terra longínqua.

Motivo: A personagem não o diz. É o leitor que, desmontando a situação, cria uma razão (também é a nossa parábola).

 

2º momento

Personagem principal: O filho mais novo

Personagens secundárias: Panóplia de pessoas que vai conhecendo – figurantes, à excepção do dono dos porcos, personagem-tipo -.

Cenários: 1º imaginado/construído pelo leitor

        2º rural; criação de porcos

2ª decisão: O filho mais novo decide voltar para a casa do pai.

Motivo: Já não tinha nada; passava fome.

 

3º Momento

Personagem principal: O filho mais novo.

Personagens secundárias: Os assalariados do pai, anónimos.

Desfecho: O filho mais novo volta para a casa do pai.

Objectivo: Deixar de passar privações.

Final: O pai festeja.

Momento apoteótico com um final absolutamente inesperado.

 

4.º Momento

Personagem principal: O filho mais velho

Personagem secundária: O pai

Situação: Conflito entre ambos. Noções diferentes de justiça.

 

Se há histórias que jogam com a nossa ignorância da vida e nos desafiam, nenhuma o faz tão primorosamente como esta parábola. Não é uma moral, é o enfrentar das nossas ilusões e da nossa ignorância. Quantos são os filhos que se revoltam contra os seus pais por nada? Quantos veem a vida familiar como um entrave à experiência do conhecimento do outro, ao necessário quanto urgente aprendizado que nos ajuda a subir a patamares mais complexos?

O mundo é uma experiência avassaladora que arrasta consigo a emergência de uma mudança radical de mentalidade, uma observação minuciosa, uma consciência de novas necessidades, nomeadamente a de saber proteger-se pelos seus próprios meios. No entanto, a maior lição será o amargo da experiência de que os outros não são pai, nem família, mas desconhecidos como desconhecida é a vida com eles, totalmente imprevisível em que se está exposto, desamparado, frágil. O filho descobriu tudo isso arduamente, e também e por contraste a sublimidade dos sentimentos do pai, a sua infinita misericórdia, o que podemos resumir deste modo: seminal a esta parábola há uma nova noção de ressurreição, a saber, rejeitar a família é estar morto na medida em que repudia a progenitura, a semente, a origem, o que lhe confere identidade: “porque o meu filho estava morto e voltou à vida.” (v.24). Isto significa que há uma pertença, um dever, uma genealogia ôntica identitária que passa pelo biológico e que o transcende: ser da casa do pai é ser filho de pleno direito numa relação tão profunda que se torna indizível. São valores antropológicos que se impõem numa necessidade de voltar à tribo ou ao clã numa misteriosa estabilidade que só estes conseguem dar.

Por outro lado, Jesus pretende com esta parábola fazer-nos ver o quão somos ridículos quando fazemos escolhas entre as pessoas numa avaliação que não faz sentido, a saber, não nos sentarmos à mesa com pecadores. A dicotomia puro versus impuro é inqualificável. Eu conheço quem se recuse a estar à mesma mesa com quem não seja vegetariano, porque comer carne é um pecado de lesa-majestade. Certamente não andará de transportes públicos, nem vai a espectáculos.

Para J. Jeremias, Lc 15: 11-32 “é em primeira linha uma parábola apologética, com que Jesus justifica diante de seus críticos sua comunhão de mesa com os pecadores (…) (2) O que é então ser pai? Que Deus seria esse que ensinasse a recusar a comunhão de mesa com pecadores?! Acaso somos perfeitos? E se o pecador é o próprio filho, sangue do seu sangue, carne da sua carne, rejeita-se? Se o filho pecou, por maiores que sejam os seus pecados, não estará o pai sempre pronto a recebê-lo? A mesa do Pai, sempre posta, é um festim para todos os que regressam, exaustos da vida, das experiências dolorosas mas avassaladoras.

             Antes de deixar o pai, o filho desconhecia que partir para conhecer o mundo é sujeitar-se a entrar no imundo: o espaço dos que não conseguem viver nele, porque estão atormentados - como o endemoninhado de Gerasa, cuja legião de espíritos imundos fora lançada para uma vara de porcos, e o doente enviado para casa por imposição de Jesus (3) -, ou porque se julgam superiores – mulher adúltera apedrejada, “aquele que, de entre vós, está sem pecado, seja o primeiro que atire pedra contra ela.” (4) -, ou de todos aqueles que se comprazem em prejudicar o próximo. Nada que o pai dissesse seria capaz de o demover. Veja-se que a parábola silencia o pai quando o filho lhe pede a sua parte dos bens. É como se lhe dissesse: Vai.

Porém, o filho não regressa por amor ao pai, mas pela fome e miséria em que caiu. Desejou a vida dos assalariados da casa de seu pai, ele que se tornou também um assalariado, faminto e sem ordem para comer nem sequer da comida dos porcos. A vida abjecta a que desceu transfigurou-o, aparece descalço, paupérrimo, mísero, irreconhecível, porém não para uma pessoa especial que, ao longe, reconheceu-o, a única capaz de o reconhecer fosse com que aspecto fosse; e que foi ao seu encontro compadecido (v.20), não aguardou que ele chegasse. O pai tem pressa do abraço, daqueles beijos que significam perdão incondicional; ninguém, no mundo inteiro, teria tal atitude: o excesso de vivência catastrófica, de faltas, de erros, enfim, foi compatível com a misericórdia sem medida do pai. Tolentino Mendonça afirma sapiente que “não há misericórdia sem excesso. Se queremos ser pessoas moderadas, se queremos ser apenas justos, se queremos fazer apenas o que está certo, seremos até boas pessoas, mas não conheceremos o Evangelho da Misericórdia.” (5)

Não há grandes máximas. A parábola impõe-se pelo amor incondicional do pai. O filho sentiu na pele o desencontro, o desamor, o desrespeito, e isso já vale por mil sermões, que somos tão bons a dar e tão maus a cumprir. O excesso levou o filho a ver o mundo com outra lente.

            Porém, há ainda uma personagem muito importante: O vitelo gordo. Isto significa que havia um, aquele e não outro vitelo, que estaria reservado para ocasião especial, e que era agora. O filho mais velho, que somos nós, os bem comportados, ficou indignado, pois nem tampouco tinha sido abatido para ele um cabrito (v29) – queremos tanto ser premiados -. Não satisfeito, refere-se ao irmão como esse teu filho (v30), o esbanjador, o perdido na vida. e mais uma vez o pai, em infinita misericórdia suplicou (v28) que, também ele, caísse em si, porque esteve sempre com ele, o que já era uma festa permanente. Estamos em presença de duas manifestações ou duas aplicações diferentes da misericórdia. Aqui, não é a da lonjura e do regresso, mas a da justificação de uma atitude de incompreensão: “Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu” (v31).

            Não é fácil aprender a ser misericordioso. Tem que se compreender primeiro que a vida é cheia de excessos, que o prato da balança está em desequilíbrio, que o imundo não está apenas mesmo ao lado, está em nós. Só pela misericórdia nos tornamos mundo.

Ninguém é feliz na exclusão. Excluir é esvaziar-se. Aprendemos com esta parábola que o poder de Deus é surpreendente e infinito, que a Sua linguagem não é a nossa, que o Seu pensamento difere do nosso.

            O filho mais velho é o auditório de Jesus, nós, muito tempo depois desta história. Esta parábola, que não é uma alegoria, confronta-nos com a noção de festa, de banquete, de alegria infinita num quadro redentor.

            Só no regresso a casa, o filho conheceu quem o seu pai é verdadeiramente; só nos festejos o filho que não saiu de casa alcança a sabedoria do pai.

O filho volta porque passa privações, não por saudade do amor do pai; mas o desfecho da história remete-nos, inevitavelmente, para uma reflexão sobre como é que nós agiríamos em idêntica situação. E isso é coisa que não falta, nos tempos que correm, nesta aldeia frenética em que vivemos, em um mundo que quer destruir a família e reduzir pai e mãe a progenitores. 

A globalização pretende pôr fim às diferenças culturais e formatizar toda a gente. Há, porém, um bando de resistentes. Mas até quando irão resistir? Não se sabe! Espalhar amor pelo planeta não interessa aos independentes, os que não precisam de ninguém. A globalização gerou sós, assustados e desconfiados, temerosos e fantasmáticos. Ora natureza e cultura são seminais da nossa existência e espiritualidade, e não são globalizáveis.

Assim, na nossa cultura cristã, apetece-me dizer com Jesus: “Zaqueu, desce depressa, pois hoje é necessário que fique em tua casa.” (…) “Pois o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”. (6)

Ou seja, “ (…) porque o meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado. (v24)

Festejemos, porque bela é a ressurreição, incomensurável o amor de Deus.

 

Margarida Azevedo

 

 

(1) Conferência Episcopal Portuguesa, Bíblia, os Quatro Evangelhos e os Salmos, Lisboa, 2019, Lc 15: 11-32.

Referências:

(2) JEREMIAS, J., As Parábolas de Jesus, Paulus, São Paulo, 2004, p.134.

(3) Mc 5:1-20. Trad. C.E.P.

(4) Jo 8:7. Trad. J.F.de Almeida

(5) MENDONÇA, J.T., Elogio da Sede, Quetzal Editores, Lisboa, 2018, p.133.

(6) Lc 19: 5; 10. Trad. C.E.P.

sábado, abril 01, 2023

A PROCURA DO SENTIDO DE NÓS MESMOS II



A grande questão é: Mas afinal de contas o que é o passado? A que nos referimos quando dizemos a palavra passado? À partida, impõe-se como a ilusão própria de um investimento psicológico que lhe confere uma sabedoria quase infinita. Temos o passado como uma autoridade e daí uma fonte inesgotável de saber, raiz ôntica da nossa identidade. É uma espécie de fonte de onde jorra água, mas cuja raiz nos está vedada, sob pena de destruirmos a própria fonte e ficarmos com sede. A atracção do passado é nunca chegarmos lá.

Perdidos no desencontro de nós mesmos, temos a ilusão de que o passado contém as respostas satisfatórias para os nossos desencontros do presente. Ora viver em prol do passado é rejeitar que o nosso processo evolutivo é bem mais complexo do que supomos.

Porém, há em nós um móbil poderoso, a curiosidade. Aceitar que o passado está vedado é o mesmo que proibir de comer o fruto “daquela” árvore. Como ou não como? Há alguém que diz que sim porque fico a saber o mesmo que aquele que me proibiu. Mas então, como para me conhecer, ou como para me igualar a algo/alguém? O que é que move o meu apetite? De que é que tenho fome? Lá diz o povo diz-me o que comes, dir-te-ei quem és. Este alimento metafísico vai definir, escatologicamente, porque é que como aquilo e não outra coisa qualquer.

A queda adveio precisamente da ilusão de querer ser igual a alguém. Coloca-nos a barreira ontológica de que Deus me está tão perto e tão longe. Que Deus não é igualável, imitável, não tem duplos. A infinidade do seu poder está simbolicamente na simplicidade daquela árvore: “Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais.”* (Gn 1: 3) Há um fruto que não é para nós. Pergunta-se: É da natureza humana aceitar tal imposição/impossibilidade? Está montada a nossa luta. O humano tem desejado ser um deus, a história assim o demonstra: mata tudo o que se oponha aos seus intentos, quer mandar, pôr e dispor; quer ser fonte, e fonte nunca poderá ser, porque a fonte é Deus. Não há maior luta para o humano que enfrentar Deus. Tudo lhe remete, o bom e o mau.

Lembremos que o diabo era o anjo mais perfeito do Reino (assim se aprendeu na catequese) e que, narcisicamente, querendo ser como Deus, caiu na mais abjecta condição: deambular pela terra querendo arrastar consigo as almas mais fracas e também as supostamente mais fortes. Os falsos profetas são os seus agentes directos assim como os falsos Cristos, o que deixa supor que a imitação será muito perfeita. Isto significa que o diabólico, ou o negativo, é conhecedor de todas as forças, boas e más, e que as sabe manipular muito bem - isto é confuso -, que há limites, até para o próprio desejo de bem. Daí a advertência: Então se alguém vos disser ‘eis aqui o Cristo’ ou ‘aqui <está ele> ‘ não acrediteis. Pois serão levantados falsos Cristos e falsos profetas e darão sinais grandes e prodígios com o intuito de desencaminhar, se possível, também os escolhidos. (Mt 24: 23-24).** E na completa absolutização do poder de Deus, surge a advertência maior: sobre aquele dia e aquela hora ninguém sabe <nada>. Nem os anjos dos céus, nem o Filho; só o Pai.” (v. 36)**

Retomando a reflexão de Génesis 1:1-3, Israel vai pegar no seus textos e desmitologizá-los, isto é, no lugar de uma criação feita por vários deuses vai colocar um único Deus. Esta desmitologização, no entanto, não significa deitar o mito para o lixo, mas reinterpretá-lo: o interdito comanda a vida. Esta antropologia é a alavanca do processo de hominização, a saber, tocar no interdito e carregar com as consequências é o fundamento da história humana. São duras? São existencialmente duras, e a maior é a do mistério da própria morte. É esta a grande incógnita humana, o móbil de todos os móbeis, com a respectiva questão consensual: Para onde vou? Há ou não há algo após a morte?

A advertência contra os falsos profetas, de que Jesus bem mais tarde vem dar esclarecimentos, vem precisamente nessa sequência. Desmitologização da fé e da crença no homem como um deus. Dito de outro modo, não acreditem nos homens, mas em Deus. Vocês são o próprio mito para vós próprios; os monstros que criaram são reflexos objectivos da vossa ignorância. O mito é apenas uma história que conta o que não conseguimos explicar de outro modo, é o oposto de endeusamento do próprio homem. 

Para a psicologia, vir à consciência o que nesta vida recalcámos e porquê é tão importante para superar episódios traumáticos, a começar pelos da infância, como revelar vidas esquecidas e bem arquivadas, com tudo o que foi vivido ao longo de milénios para certos crentes. Isto é, por muito longe desses tempos e espaços imemoriais que estejamos, ansiamos por uma revelação de nós mesmos para o que supomos ser o nosso equilíbrio. Só que o nosso aparelho psicológico pouco ou nada evoluiu, pois não suporta a verdade de si mesmo quando ela toca determinados pontos, como um ténue farrapinho do que chamamos a nossa verdade vivencial.

Parece que a sanidade mental depende da eficácia do esquecimento, o que parece ser uma contradição, sendo o louco aquele que tem forças para carregar com o historial da sua vivência não precisando de se camuflar por detrás da roupagem da personalidade. Talvez tenha optado por isso em tempos idos, os tais que fazem parte do esquecimento.

O que há a fazer, então? Resta-nos a grande graça do esquecimento, porém, uma graça problemática. Ela não anula a nossa curiosidade infinita e insaciável, ainda que saibamos pela Espiritualidade que o conhecimento do pretérito destruir-nos-ia fulminando-nos. Porém, há quem prefira queimar-se a viver na ignorância de si mesmo. O esquecimento do passado é responsável pela emergência de uma curiosidade transcendente e metafísica. A Espiritualidade confronta-nos com a impossibilidade, por agora, acalma-nos dizendo que um dia tudo será revelado. Será. Provavelmente quando isso acontecer já não fará muito sentido. Resta-nos, todavia, essa esperança, quando atingirmos uma maturidade compatível que, segundo a Espiritualidade, só se consegue além-túmulo. A Espiritualidade convida-nos à alegria do presente, à luta por fazer dele uma celebração constante da vida, inesgotável em acontecimentos renovadores.

No fundo, esta pesquisa existencial e antropológica lembra-nos que as negatividades são muito importantes para nós. Ao querermos saber quem fomos, ou o que somos nesta corrente infindável e misteriosa a que chamamos vida, sabemos que tocamos na barbárie no seu melhor. O problema é que enfrentá-la como protagonistas activos da mesma envolver-nos-ia numa vergonha da nossa espiritualidade de tal forma que nos destruiria. Por exemplo, o nosso ego tão exaltado, a nossa falta de humildade tão forte, a fragilidade da nossa sapiência que julgamos enorme e assertiva, ou o ridículo da nossa famosa personalidade cairiam por terra. O que seria de nós? O passado é a nudez, um cru, um tudo visto; ou nada disso, a saber, uma passagem, um momento de eternidade, uma nesga de princípio, um corpo deformado, uma arma mortífera, um gesto feroz.

Os profetas foram quem melhor assumiu singular ousadia que, nos seus discursos tão estranhamente assertivos, foram tidos como possuídos e perigosos, e daí perseguidos e assassinados. Ninguém percebia que o seu papel era precisamente o de nos libertarem dos atavismos das nossas tendências nocivas, das tradições paradas no tempo, da dureza dos nossos corações. Pregar o amor e a sensatez, educar e formar é demais para os poderosos da terra.

Viver é ouvir essas vozes enviadas, é sentir-se longe e simultaneamente tão perto do divino. Revelação da fé como uma curiosidade, o mecanismo, a chave-mestra que abre um portão gigante à significação de nós mesmos?! Não será a fé uma forma de ir buscar a uma instância qualquer o fundamento do esquecimento? Afinal, acredita-se em quê? No Deus refúgio, no Deus Consolador, no Deus Santo dos Santos, no Deus Algo inatingível, no Deus Ser completamente fora do pensável, tão superior, tão supremo, tão puro que nos perdoa infinitamente, a grande consolação para a humanidade?

É nesta perdição existencial, nesta seminal e pura ignorância, neste incognoscível, que chegámos ao séc. XXI tão conhecedores de nós mesmos como os homens das cavernas. O processo de hominização superou o de humanização: o corpo mudou, mas a alma é exactamente a mesma, violenta e devoradora. É pena. Há um défice de humano. Pergunta-se: Mas não há quem ajude?

Não tem faltado. Gente anónima. Por exemplo, todo o percurso de Jesus é a mostra do que nós somos, e por isso o rejeitámos. Não é fácil falar de amor num mundo como o nosso. Pelo amor a luta pelo passado perde sentido, a verdade revela-se, a felicidade impõe-se como uma flor singela num jardim de relva muito verde. O reino de Deus é o mesmo para toda a gente.

Precisa-se urgentemente de um reencontro, uma releitura, um incentivo que fortifique a fé, uma outra e nova visita aos textos. Se os cristãos não mudarem, se continuarem a ignorar as Escrituras, e os Evangelhos muito concretamente, então continuarão perdidos no fosso. O Cristo de Jesus é futuro, é Vida, é Luz. Contra ele o passado nada pode, é desnecessário.

Quem sabe, se um desencarne glorioso e feliz de uma consciência leve não conduzirá à rejeição de si mesmo, isto é, do arquivo da nossa mesma arquê?

Por isso, os evangelhos nos trazem um Jesus que, ao descer ao humano, converte a nossa natureza em nova possibilidade. Somos possíveis santos, somos possíveis perfeitos, numa palavra, temos a possibilidade de ser outros, tudo à maneira humana porque é possível sermos humanos e bons. Com Jesus, somos investidos de uma foça que nos transforma mediante a fé, que esclarece esta nossa natureza de imitadores natos. Se imitarmos um animal, somos como ele, se nos imitarmos uns aos outros, seremos reflexo uns dos outros, mas se imitarmos o Cristo Redentor seremos felizes. Procuremo-Lo e outro sentido existencial daremos à nossa vida.

Os cristãos precisam de acreditar nesse Cristo libertador. Precisam de se perder na sublimidade de uma fé inabalável e consoladora; de se abrir ao outro e à natureza, à vida como um amor sem limites, porque ser cristão é não conhecer barreiras.

É imperioso que se convertam, homens e mulheres, a este pregador do Reino de Deus, que não impôs condições, que não veio perder tempo em moralidades, que não escolheu ninguém, mas que veio dar as dicas para que cada um consiga fazer da vida um caminho para Deus.

Pergunta-se: Então, mas o que fazer ao desconsolo da ignorância quanto ao passado? Nada, absolutamente nada. Nunca o atingiremos neste pião que é a vida. O/a cristão/ã é um/a crente totalmente virado/a para o futuro porque sabe viver com o desconhecido. Pensar no passado é matéria para o psiquiatra. O verdadeiro cristão procura o equilíbrio na força do amor. É que os actos de amor abrem novos sentidos… Quer saber o seu passado? Leia um compêndio de história.

Se o céu está limpo sabemos que não vai chover. O amor é um grande sinal.

(cont.)

 

Margarida Azevedo

 

*trad. J. F. de Almeida.

** trad. F Lourenço. Ler na íntegra todo o cap. Mt 24.