domingo, novembro 27, 2022

A DIABOLIZAÇÃO DISFARÇADA DAS COMUNICAÇÕES ESPIRITUAIS

 


 

“Tu que amas a Deus, mantém viva e atenta a tua inteligência! Bem precisas disso, pois ao viveres a profundidade da oração, ao te sentires, como orante, profundamente imerso nesse mundo espiritual, pode acontecer-te ver uma luz, ou um fogo (fora de ti ou dentro de ti) ou até mesmo a assim chamada figura de Cristo, ou a de um anjo, ou a de um santo – pois bem, quando isso te acontecer, rejeita o que vês.”(!)

 

 

          Falar de falsos profetas já não resulta, remeter para o Evangelho ou para os profetas, a mesma coisa. Fechados no seu casulo, os grupos espirituais, que deviam ser uma lufada de ar fresco no actual contexto socio-político, pelo contrário, dão largas ao egoísmo das suas práticas, desculpando-se com o karma ou com o merecimento sequencial a vidas passadas.

          Este círculo fechado, com resposta para tudo e mais alguma coisa, considera-se a chave-mestra que abre todas as portas deste labirinto que é a vida humana. Ao invés de apelar à modificação interior e esquecer de vez o pretérito, agradável e necessariamente esquecido por misericórdia divina, estão a inventar-se, mediante um fanatismo exacerbado, seres de carne e osso tão superiores e tão conhecedores do seu passado, com tanta certeza e afinco que nem têm a noção do ridículo.

          O que é que vem acrescentar à humanidade saber que um homem que viveu na terra há bem pouco tempo foi Platão, Descartes, Francisco de Assis, e de mais umas quantas celebridades deste belo planeta? E ainda que fosse verdade, tornar-se-ia imperioso silenciar, aquele silêncio que só a humildade conhece.

É que não basta estar em oração. Muitas vezes, o recolhimento e a introspecção (se é que isso existe ou é possível), enganam-nos. Um grupo em que todos dizem o mesmo não significa um grupo unido pelo mesmo ideal. O mesmo ideal é a confluência de uma multiplicidade de ideias, o contrário de um bando de papagaios.

É bom lembrar que o espelho engana-nos, é assim na dança e é em tudo na vida. Nós só vemos o que queremos ver, geralmente o que nos agrada. Os grupos de trabalho espiritual estão cheios de armadilhas, algumas até relativamente disfarçadas, bem formuladas, cheias de lógica, léxico do mais fino gosto, como: paz, muito amor (isso não pode faltar), muito Jesus, muito Deus, enfim. Porém, há sempre um que, nesses grupos, habitualmente fala, fala e fala, psicótico e narcísico quão enraivecido, ou muito santinho de voz turva de emoção, que gosta muito de se ouvir e de se impor. É o iluminado, director espiritual lá do sítio, de tal forma que, se alguém o contrariar, aqui d´el-rei, cospe veneno ou deita com as chaves do centro espírita ao chão, como já aconteceu.

Ora podemos estar sós em grande momento de meditação e oração; podemos estar acompanhados, unidos em um mesmo ideal e a partilhar idêntica perspectiva, porém, isso não garante sucesso, libertação das negatividades, espiritualidade assertiva. Aquilo que não se vê, o pensamento, a intenção, o objectivo, enfim, são decisivos para o desfecho dos trabalhos.

Torna-se imperioso perceber que é na diferença que encontramos a verdadeira reflecção. O outro é sempre a maior riqueza para uma vivência rumo a uma sociedade mais espiritualizada, e a um consequente alívio do sofrimento.

          É bom ter presente que não são as palavras da oração que nos trazem a boa companhia espiritual que tanto se deseja, mas o coração que as pronuncia. Para Deus não há deuses, nem Espíritos, nem homens nem mulheres à parte, superiores e alvo de especial atenção. A dificuldade em viver uma espiritualidade igualitária tem sido a maior barreira ao triunfo de uma espiritualidade libertadora. O ser humano persiste nesta dualidade escravizadora de bons versus maus, classificação traçada à luz dos seus parcos recursos tanto de fé como de razão.

          Tomemos o exemplo de Jesus: as suas referências, os seus paradigmas, os seus modelos são os rejeitados da sociedade; as suas multidões eram plurais. Isto significa o contrário do secretismo humano, da implementação do delírio, do ilusório, do fantasioso. As palavras de Jesus, os Evangelhos e os profetas são agentes do futuro, não do passado. O passado já lá vai. Ele não é um justificativo, uma desculpa, uma origem para tudo o que fazemos e dizemos. O passado é uma interrogação sem resposta porque esta anda perdida nas teias do esquecimento.

          Os crentes falham não apenas porque estão dependentes dos sacerdotes, pregadores, mestres, místicos, ancestralidade, etc., porque acreditam que eles são pessoas especiais, dotadas de capacidades sobre-humanas a quem tudo é possível, porque estão numa relação directa com Deus. Só que em relação directa com Deus estamos todos, basta queremos.

          Quanto ao esquecimento, muitos não querem aceitá-lo. Parece que há uns mais esquecidos do que outros. O pior é que há quem acredite. Estamos na antítese da Doutrina Espírita. É deplorável.

 

          Margarida Azevedo

         

         

 

Referências:

(1)    Pequena FilocaliA; Paulinas, Prior Velho, 2017, S. Gregório, O Sinaíta, § 10, pp.717-718, trad. Dimas de Almeida.

sexta-feira, novembro 18, 2022

DAS RELIGIÕES OU DO ABISMO INFERNAL


 

(O Silêncio dos Bons)

 

III

 

 

“Os seres humanos nunca praticam o mal de maneira tão completa e feliz como quando o fazem por convicção religiosa.”

Pascal (1)

 

A nossa imaginação criou noções de bem e de mal problemáticas. Parece que há um fundo estruturante que lhes dá vida e consistência. Porém, não sabemos que fundo é esse, e as religiões continuam a perpetuá-lo
.

 

            Um deus mágico é o oposto ao Deus da bondade. Mas é com esse deus que as religiões trabalham, e por isso temem a racionalidade. Onde está o colo, a doçura e a afabilidade? Onde está a solicitude, a compreensão, o saber ouvir sem censuras? Onde está a verdadeira moldagem do espírito humano, a modificação de uma natureza em que insistimos permanecer e prolongar? Ninguém fala nisso. Por outro lado, poderão as religiões moldar a nossa natureza? Estará semelhante função ao seu alcance? Se não, porque existem? Se sim, porque não o fazem?

            As religiões desertificam. Estão demasiado preocupadas com os seus tesouros, o poder, o domínio. Secam-nos, invadem-nos. Publicitam-se como um perfume, atacam-se entre si na luta pela supremacia política, postos de destaque, pelo vil poder.

            Para o comum dos crentes, não é a morte que assusta, nem o pesadelo da vida, mas o não ter forças para lutar por uma vida melhor, manietado por princípios que, na hora da morte, se revelam falsos, fantasiosos, ingénuos, inapropriados. Uma mentira sem fim, uma vida perdida é isso que tememos. É este o verdadeiro deserto, o vazio, a revolta. O temor de pensarmos que a hora da morte se reveste de híper-lucidez, até mesmo para aqueles que foram loucos uma vida inteira, condenados aos hospícios; tememos esse momento de balanço fugaz do último suspiro, a bater bem fundo na consciência, a gritar de olhos vítreos: “Desperdiçaste uma existência. Foste um/a fraco/a porque não lutaste, porque acreditaste ao invés de perdoares, de amares, de seres feliz. Não percebeste nada de nada e deste tanta força ao inútil.” É o momento em que a morte é como quem se lança de um avião sem pára-quedas.

            Tememos o momento da morte como uma incompatibilidade com a vida. Uma vida posta de rastos, curvada, submissa, fraca e tão drasticamente mal vivida.

            Nesse momento, é natural que, lá bem no fundo, a consciência diga que a pureza e a graça já não moram aqui. Mudaram-se para outro lugar porque as religiões sequestraram-nos, desiludiram-nos, falharam. Foram uma vivência fantasmática, uma ficção, uma brincadeira leviana com a espiritualidade. Falharam porque o maior erro foi terem a perfeição como paradigma. A imperfeição é um bem. Nela reside a infinidade de hipóteses e reparos. É o móbil do futuro. A imperfeição será sempre o que caracteriza tudo o que não é Deus. Só a imperfeição conduz à humildade, ao repensar, à memória como uma alavanca para a coragem de querer continuar sempre em frente.

            Identificar imperfeição com diabolização é erro crasso. Rejeitar a comunicação com os Espíritos ainda é pior. Nós vivemos com os mortos. Lembramo-los a par e passo. Até temos um dia no ano para os lembrarmos com mais afinco, não vá alguém ter a ousadia de os esquecer. Familiares que já partiram, amigos que deixaram saudade, colegas e professores que nos marcaram. O grande pecado seria a ingratidão de não os lembrarmos. Eles estão connosco. Numa oração tocamo-los com o pensamento. Sentimos a sua presença numa intuição, num sonho, numa inspiração. E é assim porque Deus o permite. Os mortos são a nossa esperança, o que de mais perto legitima a nossa fé, o que melhor nos lembra que devemos continuar. Um dia, os mortos seremos nós e não desejamos ser esquecidos. O barro volta ao barro, mas isso não significa perda de memória nem injustiça divina. É a vida que continua em outras paragens numa doce lembrança. Os mortos, ainda que em sonhos, são a expressão, indelével, da transposição da cortina que é a misteriosa morte face a algo não menos misterioso que é a vida. Os mortos são a nossa mais fiel expressão de amor, porque o amor nem é de barro nem morre.

            Além disso, quando falamos dos mortos longínquos, perdidos na noite dos tempos, abordamos o fundamento da ancestralidade identitária de um povo, ou de uma nação inteira. Por outro lado, podemos igualmente estar a falar de nós próprios. Somos os nossos ancestrais, os avós de nós mesmos, aqui ou em qualquer lugar, tal como somos contemporâneos uns dos outros no passado distante, reencontrados hoje na vida que estamos a viver. Na verdade, viver é reencontrar-se e reencontrar.

            “Mas esta vida não se tornou insuportável, um verdadeiro abismo? “O abismo não é a nossa natural ignorância, nem a vida é insuportável. O abismo é querer fazer parte de uma falsa realidade, e isso é que é insuportável, sem se dar conta de que é um castelo de cartas; lutar por ser rico por medo de não ter poder, porque onde há dinheiro há dignidade, segundo o novo padrão de valores; estar na fé como um carneiro e sentir-se feliz por pertencer ao rebanho. Isto é que é abissal e insuportável.

            Lamentavelmente, as religiões estão atrasadas. Num mundo de tanta pressa, não há pressa de chegar a Deus. Precisamos de uma revolução religiosa e outra dentro de nós mesmos. Este momento hipnótico em que vivemos ofusca o entendimento e a fé. É urgente uma reconfiguração. Sentimo-nos feridos, deficitários, carenciados. Faz-nos falta aprender o puro desperdício, aquele que remete para valores mais altos, que nos perfuma a alma, que nos prostra aos pés do verdadeiro, do puro e do sublime; que anula o poder económico como uma exibição, uma força perante o outro; que manifesta uma fé com a noção da transcendência; um desperdício metafísico, existencial, num banquete onde ninguém dá importância ao aroma purificador. Aquele desperdício em que pensar no preço é ridicularizar uma situação existencial inefável, toda consciência, toda espectacularidade. É caso para perguntar: “Já comprou o seu frasco de nardo? Sobre quem pensaria derramá-lo?” (2)

            Estamos a colher os efeitos colaterais de um passado tenebroso face a uma modernidade cujo materialismo tem cada vez mais força. A criação de santos e símbolos, de ritos complexos, mártires, enfim, é uma máquina de enriquecimento fácil. Mais preocupadas em negociar com a espiritualidade, exaltando a fé como força subserviente e submissa ao seu poder, as religiões caminham no ateísmo aterrador.

            Uma linha transversal une todas as religiões: silenciam aqueles que poderiam fazer delas mananciais de luz divina ao serviço da humanidade. Silenciam os bons. Quantos há que desejariam ser ouvidos, que têm um saber que lhes vem do fundo da alma, uma consciência profunda e assertiva do bem e do mal, mas que as figuras do topo não permitem que se manifestem?! Grandes pecados, os das religiões. No momento de grande pregação que é o Sermão da Montanha, Jesus diz: “Nem <as pessoas> acendem uma candeia e a colocam debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro – e brilha para todos os que estão dentro da casa. Que assim brilhe a vossa luz diante das pessoas, para que elas vejam as vossas belas ações e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus.” (3)

            De luzes apagadas caminham as religiões, cegas, rumo ao precipício da humanidade. Assim se formam grupos por dissidência, cinicamente chamados de pluralismo e liberdade de expressão, riqueza religiosa, mas que, no fundo, mais não são que fruto da expulsão de elementos altamente valiosos, na sua maioria, que poderiam fazer crescer os movimentos em que se encontram. Por isso, numa opinião muito pessoal, reforço o que disse há algum tempo: Não abandone o seu grupo religioso. Sinta-se responsável pelo seu crescimento. Se acha que tem uma palavra a dizer, lute por se fazer ouvir. A saída será sempre a última opção.

Porém, esta questão conduz-nos a uma reflexão interessante. Pergunta-se: Porque é que o vidente, o profeta e o sacerdote não coincidem na mesma pessoa? Porque com diferentes actores, parece que estamos a falar de espiritualidade em graus diferentes, diferentes discursos, diferentes intensidades, diferentes experiências. Quanto a nós, ainda que não sejamos nenhum deles, há o dever do cumprimento de dizer o que está bem e o que não está, o que nos remete para outra questão: O que sou e quem sou eu na minha religião ou na minha igreja? Excelentes temáticas para reflectir.

Os caminhos da fé libertadora são imensos, eles emergem de uma vontade salvífica cheia de perguntas difíceis. Por exemplo, como se entrelaçam o dia-a-dia, a fé e a religião? Que lugar ocupa esta na nossa vida? Que ferramentas nos fornece para os nossos labores? Que espaço para a individualidade? Qual o lugar da fé na religião e por que religião luta a fé? Não esqueçamos: há uma dimensão misteriosa do religioso. Por que há religiões? Provavelmente, é por aí que devemos começar.

Ainda que os clérigos peçam perdão pelos actos ignóbeis de tempos remotos, pelas verdades que ocultaram, por todos os que torturaram, enfim, não é isso que está em causa. No momento não temos a noção do que fazemos, e há qualquer coisa que se chama evolução. O problema é mais profundo. É que HOJE continuam a fazer-se idênticos erros, com outros nomes, noutros contextos, noutras realidades. Continuam as perseguições, as descriminações através de meios apenas mais sofisticados. Hoje, condenam-se ao desemprego, já não às galés, silenciam-se e torturam-se com outros requintes. Hoje censuram-se programas de rádio ou de televisão, denegrecem-se personalidades, levam-se ao ridículo pessoas cheias de valor; temem-se os bons mais do que nunca porque eles podem chegar a todo o lado à velocidade do relâmpago. 

Hoje impedem-se grupos de construir as suas instituições de ajuda social, impede-se a ascensão de outros grupos no tecido religioso. Já lá vai o tempo dos Cristãos Novos, judeus convertidos à força. Hoje, vive-se a força da intolerância sobre os que nasceram já convertidos. Até os pacifistas estão armados até aos dentes. Hoje, em todo o mundo, há o silêncio de fés pelos grupos dominantes. É urgente que a necessidade do diálogo inter-religioso passe para todas as consciências. Sem isso feito, nada feito.

Fique com estas palavras numa oração com toda a humanidade. Há tanta gente à sua espera:

 

“Aclamai ao SENHOR, terra inteira!

Servi ao SENHOR com alegria,

   ide à sua presença com júbilo!

Sabei que só o SENHOR é Deus;

   foi Ele que nos fez e a Ele pertencemos;

   somos o seu povo e o rebanho de que Ele é pastor.

Entrai nas suas portas em ação de graças,

   nos seus átrios com hinos de louvor;

   agradecei-lhe e bendizei o seu nome.

Pois o SENHOR é bom;

   é eterna a sua misericórdia,

   e a sua fidelidade continua de geração em geração.” (4)

 

Margarida Azevedo

 

(1)   In: Revista Eletrônica.

(2)   Consultar: Mt 26: 1-8; Mc14: 3-9; Lc 7: 36-50; Jo12 1-8.

(3)   Bíblia, Novo Testamento, Os Quatro Evangelhos, Quetzal Editores, Lisboa, 2016, vol. I, Mt 5: 15-16, p. 74.trad.,LOURENÇO,F.

(4)   Sl 100, Bíblia, Os Quatro Evangelhos e os Salmos, Fundação Secretariado Nacional da Educação Cristã, Lisboa, 2019, p.536.

 

 

 

domingo, novembro 06, 2022

DAS RELIGIÕES OU DO ABISMO INFERNAL

 



(entre a alucinação e a fábula)

II

 

“O maior obstáculo para aceitar Deus sem restrições é a própria liberdade. A dependência atrai porque desresponsabiliza. A liberdade, pelo contrário, é culpabilizadora e crítica; faz-nos portadores do nosso próprio chicote.”

Um Espírito protector

 

Mas, afinal, as religiões não são feitas pelos homens? Se os homens não são perfeitos, elas também não. Sim, mas não esqueçamos de que não somos os mesmos individualmente ou em grupo. Os grupos, e quanto maiores pior, são facilmente impressionáveis, moldam-se segundo os objectivos e intentos dos seus líderes. Em grupo tomam-se decisões irreflectidas, contra os interesses individuais. A pessoa pode ser livre de ir a uma manifestação, de estar em uma assembleia religiosa, porém, uma vez lá dentro, deixa de ser livre. A multidão é sempre manipulada.

Diz Gustave Le Bom que “A multidão, (…) é quase exclusivamente conduzida pelo inconsciente. Os seus actos sofrem uma influência muito maior da espinal medula do que do cérebro. Os actos realizados podem ser perfeitos quanto à execução, mas uma vez que não são dirigidos pelo cérebro, o indivíduo age segundo os acasos da excitação.” (1)

Até mesmo no silêncio. Um grupo silenciosamente reunido, por exemplo, em meditação, não escapa à regra. No silêncio, a voz de um orador em surdina, em ambiente solto e descontraído, pode dizer o que quiser porque a assembleia está receptiva a tudo o que disser; é também o ambiente ideal para que, em grupos religiosos em que é suposto manifestarem-se Entidades, estas se surjam mais facilmente. O ambiente que se gera no silêncio é tão perigoso e manipulador quanto o das manifestações barulhentas. O modus operandi é diferente mas a susceptibilidade é semelhante. Por isso, no movimento espírita, os trabalhos mediúnicos são realizados no recato de pequenos grupos, solidamente constituídos, em que os trabalhadores se conhecem bem. A oração e o estudo sério e aberto da espiritualidade constituem a grande defesa; a seriedade de caracter e o respeito no grupo e pelas Entidades é fundamentalíssimo.

No entanto, nas grandes multidões espíritas, voltamos ao mesmo. Ouvem-se belos discursos, apelativos a grandes momentos de recolhimento, críticos dos nossos comportamentos, mas baseados em histórias bem elaboradas, na sua maioria, ou em conhecimentos científicos, ou supostamente, sem consistência, como se a espiritualidade dependesse dos nossos conhecimentos. Há quem fale de astronomia ou medicina, num chorrilho de disparates, e toda a gente aplaude como se fosse uma descoberta universal. O modo como o discurso acontece, a explanação cheia de vivacidade, o audio-visual para mostrar que o que diz é verdade, enfim, conduz ao delírio das multidões, verdadeiros estados de êxtase completamente descabidos.

            Roger-Pol Droit afirma, peremptório: “se os humanos têm um ponto em comum, independentemente dos séculos, das línguas, do desenvolvimento técnico, é esse poder de construir fábulas, de inventar mundos fictícios e de conseguir viver neles, com maior ou menor aceitação, em vez de no mundo real.” (2) As religiões têm sido peritas na construção desses mundos fictícios, levando os seus seguidores a viverem neles e a desprezarem este como se de um inferno se tratasse. Nos grupos religiosos que, tal como no Espiritismo, assentam na comunicação com as Entidades, isso é mais saliente. É facílimo criar a ilusão fabulosa de mundos de Luz que, na verdade, ninguém conhece. Um Mentor espiritual de um grupo mediúnico a que eu pertencia dizia certa vez: “Vocês nem do que se passa no vosso mundo fazem uma pequena ideia, quanto mais nos outros mundos. Se verdadeiramente soubessem o que se passa no vosso planeta assustavam-se!” A espiritualidade não é uma fábula, contar uma fábula é que pode ajudar-nos a compreender a espiritualidade.

            Na realidade, o que é que nós somos? Um bando de alucinados querendo dominar o mundo porque o divino está connosco. E a alucinação é tanto maior quanto nós falamos em nome do outro, colocando-nos no lugar dele e sem olhar às dimensões: tanto falamos em nome de Deus, e dizemos do que é que Ele gosta e não gosta, do que quer e não quer, das Suas preferência, do que Ele nos pede, como fazemos a mesma coisa em relação ao mais simples dos mortais. É tudo metido no mesmo saco. A alucinação torna-nos todo-poderosos, criando a falsa ideia de superioridade, obsessiva e cega. O alucinado é um possesso, de si próprio e de tudo o que atrai, habitualmente bajuladores. É caso para perguntar: E no nosso devido lugar, colocamos-nos? Sabemos falar dele?

            Na verdade, será que podemos colocar-nos no lugar do outro? Os clérigos estão no lugar de Deus ou representam-No ou estão directamente ao Seu serviço. Como? Não se sabe. O que se sabe é que se assim não for não dominam a assistência. Quando um orador espírita discursa, habitualmente têm-no como uma voz ao serviço dos bons Espíritos. Será? Esquecem-se de que bom só o Pai (Marcos 10:18). Mas ninguém quer saber disso.

 As religiões, com os seus interditos, fabricaram viciosos, separatismos sociológicos, desencontros irreversíveis. Conhecemos as explosões do sol, não fazemos nada contra as nossas mesmas explosões; vamos a Marte, à Lua, enviamos naves para o espaço sideral, mas não dispomos do mais simples mecanismo que nos convença de que não podemos continuar a confundir a ignorância, a inveja aterradora e os demais pensamentos e actos deploráveis com força divina. O trágico não é o que nos acontece por ocasião de um desencontro com algo que nos rodeia e se nos quer impor; também não é a nossa luta por fazermos valer os nossos propósitos, com todas as forças, porque nos sentimos incompreendidos, indesejados, excluídos, repudiados, em lutas que podem custar-nos a vida. A grande tragédia é chamar verde ao amarelo, azul ao encarnado, preto ao violeta e fazer disso uma verdade universal. O trágico é não perceber que há sentidos como os nossos, sensibilidades como as nossas, explicações outras que não apenas as nossas, mas querermos à viva força que as nossas prevaleçam. Vivemos a tragédia do totalitarismo, dos líderes, do patriarcalismo, da disfunção, da desarticulação, da perseguição constrangedora, dissuasora, avassaladora. Vivemos a tragédia da ferocidade,  de nos indesejarmos, a violência constante contra nós mesmos; vivemos a tragédia do não desejo de nós mesmos nem do outro; a tragédia da relativização da vida, do desamor pela natureza. Até vivemos a tragédia de nos temermos.

            De que somos, efectivamente, capazes? A resposta é assustadora. Estejamos em Marte ou na Lua, desloquemo-nos pelo espaço sideral infinito, transportaremos sempre a nossa tragédia: os nossos demónios, os nossos delírios, os meus valores. Não é o planeta que nos define e nos molda, mas a casa espiritual na qual vivemos. E esse mundo está onde estivermos, porque o verdadeiro mundo é a casa mental em que habitamos, móbil e referencial dos nossos actos.           

É mais fácil pensar que a vida é desconcertante, e que o desconcerto é o mecanismo de um crescimento que nos levará a grandes fusões. Na impossibilidade de o evitar porque a nossa natureza não o permite, aceitamos a tirania da nossa condição. Como sair dela? Não existem auto-saídas. É com o outro e com Deus que fazemos o trajecto pelos mundos.

A superioridade da força muscular ou a superioridade bélica não é trabalho divino, mas o modo como o humano utiliza os meios que o Divino lhe oferece. Não raro a vitória é uma derrota e a derrota uma vitória. A crise das religiões é a sua força. Conduzi-las-á a repensarem-se e a refazerem o caminho. Muitas irão desaparecer, não interessa a idade, até as aparentemente mais sólidas porque mais velhas ou mais antigas, para dar lugar a novos discursos, transformados, remodelados, refeitos; outras, talvez arrepiem caminho e se modifiquem. É a consciência a transformar-se a si mesma.

            Continuar a fazer do sofrimento ou da dor um bem, não é mais que fazer da porcaria virtude. É difícil perceber que o bem esteja tão dependente do mal, ou que o bem é o mal transformado no seu oposto. Nos contos de fadas, o bem e o mal são co-existentes e de naturezas opostas. Caminham lado a lado. Porém, na luta entre o bem e o mal este perde forma terrível. O mal não vale a pena, nos contos de fadas, porque ele é realmente muito mau. No religioso somos habitados por ele, representamo-lo; nos contos de fadas, ele está fora de nós; no religioso, está dentro de nós. Afinal de contas, onde está o mal? Dentro ou fora de nós? Ataca-nos ou somos nós que nos atacamos, ou acontecem ambas as situações em simultâneo? A nossa vida é esta luta entre o fora e o dentro, um jogo de posições entre o que muda e o que não muda, o que se transforma e o que se esvai.

            Nesta confusão, há quem pense que destruindo o outro, queimando casas e terras, porque tem outra fé, destrói toda uma construção de crenças para sempre. Puro engano. Há efectivamente, do lado dos vencedores, alguém que, no silêncio, não concorda com a vitória porque tem a noção do quanto é efémera. Há sempre um contágio que fica, por mais insignificante que pareça. Depois há a história que não perdoa e que mais cedo ou mais tarde vem cobrar o preço de uma vitória fictícia, prisioneira das ilusões do momento. Vencer destruindo é a maior das derrotas. Aquele que cai levanta-se sempre, de alguma forma. Cair não significa morrer.

Quanto ao bem, há quem ainda não tenha percebido que a questão não fica resolvida pela matemática, história ou biologia. A luz salvífica é de outra natureza. Quando Jesus nos adverte que bom não é quem diz “Senhor, Senhor, mas o que faz a vontade do meu Pai que está nos céus” (Mateus 7:21), está patente o arregaçar das mangas e ir à luta. Nos evangelhos não há bons, há lutadores. Há esperança. Há certeza. O Evangelho é uma alfaia, uma rede de pesca, um computador, para todos/as aqueles/as que procuram o encontro com Deus nas entranhas da terra, no fundo do mar ou nos confins do planeta.

Lamentavelmente, as nossas fantasias e os nossos devaneios conduziram-nos, inevitavelmente, ao vazio. Já não acreditamos como antigamente, é um facto, talvez tenhamos crescido um pouco, ou não. Todavia, o problema está em nem tampouco se saber em quem acreditar, como acreditar, se vale a pena acreditar e se tudo isso não é mais que pura perda de tempo. Deus está demasiado socializado. Somos diariamente interpelados por uma infinidade de coisas que se cruzam dentro de nós e nos preenchem espaços que deviam ser só nossos.

Os cristãos, particularmente, deviam perceber que, após a Cruz tudo se renova numa Primavera que é toda espiritual. A responsabilidade apenas começa agora, atravessada por um novo conceito de Vida. A Cruz introduz-nos na liberdade e noutro sentido existencial. A Cruz é fim: de uma forma de vida, de um viver de falsos conceitos e falsas expectativas. A Cruz é o fim da própria morte. Outros, noutras partes do mundo, dirão coisas semelhantes por outros meios. Tudo se funde quando o Amor é a principal razão de viver.

O túmulo está vazio. A pedra foi removida. A figura do diabo e as de todos os demais representantes da nossa inferioridade já não servem, perderam todo o sentido. Que interessa os nomes que se lhes dá? Luz versus trevas, atracção versus repulsão, karma, energias!? Termos que não passam de meros substitutos dos antigos conceitos, importações, contágios, simpatias. As modas não alteram os nossos fundamentos. Na realidade, tudo permanece igual e a funcionalidade é idêntica.

Mas há um Mandamento novo, primaveril, sempre novo: “Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros, tal como eu vos amei, para que também vós vos ameis uns aos outros. Nisto se reconhecerão todos que sois meus discípulos, se amor tiverdes entre vós.” (3)

Apetece dizer: “E é tudo.”

(continua)

 

Margarida Azevedo

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Referências:

(1)   BON, G.L., Psicologia das multidões, Publicações Europa-América, Mem-Martins, s/d, p.27.

(2)   DROIT, R-P, Si je n´avais plus qu´une heure à vivre, Odile Jacob essais, Paris,

2015, p.82. Trad. Margarida Azevedo.

(3)   Bíblia, vol.I, Novo Testamento, Os Quatro Evangelhos, Trad. Frederico Lourenço, Quetzal Editores, Lisboa, 2016, Jo 13: 34-35, p.384.